Manifestação dos Cravos, 39 anos depois

Manifestantes nas ruas do Porto
Fotografia: Diogo Baptista

A 25 de Abril de 1974, a população irrompeu em direcção à Rua do Heroísmo, vindos da Avenida dos Aliados, para libertar os presos políticos na sede da PIDE. Em 2013, o sentido inverteu-se. 

Vários manifestantes marcharam, na passada quinta-feira, dia 25 de Abril, em direcção à Avenida dos Aliados, no Porto, para mostrar o desagrado em relação às novas políticas instauradas.

Vindos do Museu Militar ou Casa dos Horrores e Cemitério da Saudade, como apelidaram os populares, o grupo de manifestantes entoou, a plenos pulmões, palavras de ordem. Está na hora, está na hora, do Governo ir embora ou Este Governo hostil quer destruir Abril, são alguns exemplos das frases aclamadas durante o protesto.

De cravo vermelho em punho, nem o calor que se fazia sentir demoveu os manifestantes de lutar pelos seus direitos e a esta causa, juntaram-se ainda alguns transeuntes para demonstrar a sua indignação.

Aposentados, pensionistas e reformados da Associação APRe! , vestidos de negro, deram voz ao seu desagrado e juntaram-se a outras tantas associações, tais como, Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP), Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações (SNTCT), entres  muitas outras.

Já na praça da cidade e em pleno palco principal, a Associação 25 de Abril acusou a Câmara Municipal do Porto de desvalorizar as comemorações do 25 de Abril e de atitudes de censura por parte de empresa que coloca publicidade nas ruas.

VOZ DA POPULAÇÃO

António Stockler
Fotografia: Diogo Baptista

Que motivo o levou a estar presente nesta manifestação?

Em primeiro lugar, já antes da revolução lutava contra o regime fascista.
Em segundo lugar, porque o 25 de Abril veio-nos dar liberdade, veio nos dar direitos. Muitos perderam a vida nas mãos da PIDE e outros tantos estiveram presos lá nos calabouços para termos direitos que agora nos querem roubar.

Enquanto houver 25 de Abril, a minha geração, que lutou, resistiu e venceu à 39 anos, continuará a lutar, a resistir e vencerá em nome de todas as gerações. É por isso que estou aqui hoje, a recordar os que lutaram.

Onde estava à 39 anos atrás?

Precisamente aqui, nesta avenida. Estava a trabalhar e a dada altura vi 1 secção militar a vir por aí acima. Vinha o Capitão Carneiro, que eu conhecia. Dirigi-me a ele e perguntei o que ia fazer com tantos militares. Ele só me disse: Ou ganhamos e andamos para a frente ou perdemos e vamos todos presos. O melhor é ires para casa. Eu respondi: Não, não.  Já não vou para casa. Eu fico aqui a ver no que vai dar.

E o que deu? Deu a Liberdade, deu-nos direitos da saúde, da educação, da habitação, direitos fundamentais para uma democracia.
Infelizmente, a partir do 25 de Novembro* todos esses direitos têm vindo a ser roubados.

  *Tentativa de Golpe de Estado pelos sectores da esquerda radical

José Quendal
Fotografia: Diogo Baptista

 

 

Que motivo o levou a estar presente nesta manifestação?

Acho que o meu cartaz diz tudo. Não estou contente com a política que estão a seguir neste governo, porque nos mentiram. Disseram que baixavam os impostos, que não tiravam o 13º mês e mal chegaram ao poder fizeram exactamente o contrário daquilo que nas eleições tinham dito.

Quando se vai buscar um dinheiro que é nosso, que durante 40 anos descontamos para receber como reforma, quando se tira sem autorização é muito grave.

Onde estava à 39 anos atrás?

Preparava-me para sair do país para ir ver umas corridas de carros a Madrid. Mas à minha frente, quando ia de Guarda para Vilar Formoso, ia um carro do exército que ia fechar a fronteira e, portanto, já não consegui passar.

É claro que me juntei e lutei pela democracia.

Manuel Vasques
Fotografia: Diogo Baptista

 

 

Que motivo o levou a estar presente nesta manifestação?

Estou aqui, porque à 39 anos, era eu ainda uma criança de 10 anos, tive a suprema alegria de ver desaparecer, pela primeira vez em muito tempo, o medo dos olhos de quem amo.

Cresci sempre convicto que somos capazes de construir 1 sociedade sem medo, 1 sociedade em que todos são importantes e em que todos, de uma forma evoluída sabem fazer algo melhor do que aquilo que estivemos mergulhados mais de quarenta anos, o fascismo. Ou seja, em 1974, mesmo sem ter noção, eu dei um passo em direcção a 2 coisas que são referenciais na miha vida, a liberdade e à democracia.

Onde estava à 39 anos atrás?

Há 39 anos estava em Vila do Conde e lembro-me de ter fugido de casa à noite. Isto porque um primo meu me disse que tinhamos que ir à ponte ver os tanques passar, que tinha chegado a revolução.

Em Vila do Conde, os militares do Cartel 21 da Póvoa de Varzim estavam a fazer o controlo das viaturas na ponte que ligava Vila do Conde ao Porto e à Azurara. Então nós, 2 garotos, fugimos de casa para ver os soldados e ver o paraíso da Revolução e da Liberdade.

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