E como tudo que é bom sempre acaba, como é hábito dizer-se em território lusitano, o terceiro dia do NOS Primavera tem o sabor (d)a despedida, com um depósito de esperança de que a próxima edição seja ainda melhor.

A Manel, o catalão repetente no festival, coube a honra de abertura e o cantor, sempre em ‘boa onda’, conseguiu conquistar alguns fãs que já o perseguem nestas coisas. O registo melodioso contribuiu para criar uma atmosfera hospitaleira.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
NOS PRIMAVERA SOUND 2016
_ © Hugo Lima

Os Linda Martini já conheciam bem o Parque da Cidade, a banda lisboeta palmilhou este território na edição inaugural do Primavera Sound na Invicta, onde o acolhimento tinha sido caloroso, desta vez não enjeitaram a oportunidade de tocarem ao vivo alguns temas do último registo discográfico “Sirumba”. “Putos Bons” foi uma das eleitas e “Unicórnio de Santa Engrácia” idem. Mas os clássicos “Juventude Sónica” e “Amor Combate” também marcaram presença. Em resumo, uma prestação coroada de êxito, tal como a precedente já havia sido.

E de Atlanta, Georgia, nos EUA, chegaram os Algiers, para animarem o palco Super Bock. Há uma mescla de géneros criativa na música que produzem: pressente-se um gospel omnipresente, uma lufada de experimentalismo rock, psicadelismo, noise rock, entre outras tipologias musicais. O espectro de Malcom X e Luther King andaram por ali num libelo de contestação interventiva. O desempenho foi bastante positivo e o carisma impressivo de Franklin James Fisher, o vocalista, deixou pegada na memória.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
NOS PRIMAVERA SOUND 2016
_ © Hugo Lima

A romagem ao Palco NOS deixa-nos à mercê dos Chairlift, de Caroline Polacheck e Patrick Wimberly, a dupla matricial deste projecto vem acompanhada de dois músicos e consegue agitar as hostes, os motores aquecem e “Amanaemonesia” até acaba por cair no goto e “Polymorphing” também, mas somos impelidos a ir ver os Autolux ao “Palco .” e bem pode dizer-se que em boa hora o fizemos: Eugene Goreshester no baixo, Greg Edwards na guitarra e no piano e Carla Azar (bateria) constituem uma banda com um elã interessante de seguir, todos eles cantam, há uma intensidade notória no rock que praticam e que faz cativar quem os ouve. E depois de uma banda com um nome digno de um stand de automóveis, transitamos para o interior de um ‘veículo musical’ que dá pelo nome de Car Seat Headrest. Estamos em plena tenda gigante, ou melhor, no palco Pitchfork, e o concerto a começar, uma opção que dispensou os Battles (que já tínhamos visto) não por falta de qualidade dos mesmos, mas antes pela curiosidade que Will Toledo e os seus companheiros musicais andam suscitar pelos meios musicais.

Uma opção que se revelou acertada, não obstante o som sujo que saía das colunas na parte inicial da actuação, os Car Seat Headrest vão ser um caso sério musical, estamos convictos. “Vincent” é a mais saudada, mas no alinhamento sobressaem “Fill in the Blank” e que encantadora audição para uns Ramones isto nos remete. “Drunk Drivers/Killer Whales” é das mais melodiosas, por assim dizer, depois de uma descarga histriónica das guitarras, do baixo e da bateria. Will Toledo tem aquela falsa aparência de um nerd, do menino bem comportado e bom aluno, de óculinhos de massa, uma visão estigmatizada do perfil a que uma agitação frenética do corpo a acompanhar os riffs da guitarra põe fim.

Cinquenta minutos depois o público está em júbilo e pede mais, com recurso a palmas sincopadas. Nota-se o desalento do líder em não poder corresponder, ele que já tinha elogiado a assistência do Porto face à que encontrou em Barcelona. Talvez seja melhor fixar os nomes dos outros elementos da banda, para memória futura, pois vai dar jeito: Ethan Ives, Andrew Katz e Seth Dalby.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
NOS PRIMAVERA SOUND 2016 – AIR
_ © Hugo Lima

A peregrinação seguinte conduz-nos até ao palco principal, onde os Air estão prestes a começar a actuação mais esperada da noite. É como entrarmos num bar futurista e servirem-nos um cocktail espacial e ficarmos à conversa até regressarmos à nossa galáxia. Sim, o ambiente é quase de ficção científica. As três versáteis molduras luminosas que se encontram nas traseiras dos músicos alteram-se a espaços, com grafismos coloridos perenes de intensidade cromática.

“Cherry Blossom Girl”, “Venus”, “Don’t Be Light” vão assaltando os nossos ouvidos em tom repousante e em boa verdade parece que toda a gente está no bar acima descrito e em diálogo, Nicolas Godin e Jean Benoît Dunckel e o par de músicos que os acompanha lá continuam no seu púlpito espacial a dar-nos clássicos “How Does It Make You Feel?” ou “Sexy Boy”, na verdade foi quase uma meia hora de música que constituiu um bom tónico para descontrair as pernas e amansar os ouvidos. E sim, neste capítulo, os Air merecem todo o respeito pelo que fizeram pela música electrónica de produção europeia. E já que estamos a falar nisso, para quando um concerto dos incontornáveis Tangerine Dream no Nos Primavera Sound?

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
NOS PRIMAVERA SOUND 2016 – Explosions in the Sky
_ © Hugo Lima

Os Explosions in the Sky foram protagonistas de um dos melhores concertos do festival, sem margem para dúvidas. “Nós somos… Explosões no Céu!”, começou por atirar Munaf Rayani, logo à entrada, para gáudio e satisfação de quem assistia. A prestação dos texanos foi absolutamente demolidora, se com os Air já tínhamos estado no universo espacial, com os ‘Explosion’ viajamos até ele, numa jornada preenchida de êxtase, com gente que faz preces, medita, entra em transe e até chora ao som dos de Austin. Aquele bailio dos integrantes, que em semi-rotação com as guitarras, se maneiam oscilantes e parecem entrar numa cerimónia tribal, é impressionante de tão expressivo para quem vê (se não estiver de olhos fechados, pois a música deles a isso convoca).

E quem embarca nesta jornada musical deve estar preparado para as erupções cutâneas que se hão-de produzir, por vezes com aquele sublime dedilhar nas guitarras que cresce de forma paulatina até encontrar o zénite, onde verdadeiramente as cordas e a bateria explodem em autênticos orgasmos musicais. Alguém desfalece atrás de nós, em pleno hino do pós-rock “Your Hand In Mine”, o cansaço e o calor que se fez sentir naquela altura junto ao palco Super Bock foram os causadores, mas estamos certos que a pessoa em questão acabou ‘por ser salva’ pela terapia musical.

Depois de um momento tão tocante, tudo parece menos atractivo, apenas uma olhada aos Moderat, onde optamos por não permanecer na totalidade do espectáculo, embora reconhecendo o índice qualitativo que patenteiam no segmento da electrónica. O Palco Pitchfork serviu-nos ainda os decibélicos Shellac, onde os Royal Headache e Fort Romeau, em lista de espera, acabariam as diatribes musicais.

Em resumo, uma edição do Nos Primavera Sound que se salda por um êxito de adesão, com cerca de oitenta mil espectadores, ao longo dos três dias, a responderem afirmativamente ao programa e com os Sigur Rós, Brian Wilson, PJ Harvey, Savages, Explosions in the Sky e Car Seat Headrest a destacarem-se dos demais.

Para o ano há mais, que nunca são demasiados.

Texto: João Fernando Arezes

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments