O quadro inicial de “Le Syndrome Ian” quase nos remete para uma visão encantada do firmamento, com aquelas luzinhas a conferirem uma certa envolvência ao olhar do espectador: que vê os bailarinos no palco a fitarem as supostas estrelas. Um começo que enleia os intérpretes para uma partilha dançante.

Na verdade, mesmo com a metáfora visual mencionada, trata-se antes de uma evocação dos tempos em que a loucura e a euforia invadiam os clubes nocturnos de Manchester, no final dos anos 80 e primórdios da década de 90, num movimento que ficou conhecido por Madchester.

Curiosamente, mesmo tendo uma existência muito prévia à do movimento supracitado, a banda charneira e inspiradora matricial que desencadeou todo este fenómeno acabam por ser os Joy Division, do icónico Ian Curtis, o vocalista deste colectivo musical do denominado pós-punk. O desaparecimento do malogrado líder, com a morte dramática que todo o mundo conhece, conferiu-lhe o epíteto de um mito. Para remate, quem influencia sem participar de todo no movimento são os sucedâneos dos Joy Division (1976 – 1980), os New Order, grupo formado pelos elementos dos ‘Division’, banda que neste entretanto é extinta.

Regressando ao palco e ao trabalho de Christian Rizzo, os bailarinos agrupam-se em associações sucessivas de dois, três e quatro elementos, o ritmo musical faz-se em toada electrónica quase minimalista, mas vai ganhando lastro. As luzes que começam por ser ténues ganham fôlego expressivo: três girândolas luminosas, que se assemelham a rodas de carroças e que através do meio do círculo das radiais expelem fumos.

É uma discoteca invadida por sons e luzes e diatribes dançantes. Os intérpretes vão ensaiando movimentos mais ou menos frenéticos no meio de uma névoa densa. O compasso torna-se sincopado e o ritmo cresce para quem dança. Há um apelo estético, quase gráfico, naquela radial solar que espalha luz e fumo e recorta as imagens dos intérpretes e que se perpetua na memória do espectáculo.

Sim, Ian Curtis está omnipresente. Percebe-se isso em termos de conceito da peça coreográfica como algo que se espalha e contagia os circunstantes. E no aparecimento de uma figura, de um espectro, que no final acaba a mimetizar-se pelo colectivo de bailarinos.

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