Jorge Palma & Sérgio Godinho – Uma parelha de cantautores gigantes no Coliseu do Porto

Quinta-feira, são 21h30 e verifica-se um frenesim muito peculiar na velhinha sala da Rua Passos Manuel: há gente cujo proverbial atraso lusitano deixou de fora das cadeiras verdes à hora marcada. A galeria e a geral, vulgo “galinheiro”, não estavam contempladas na venda de bilhetes para este dia, só no dia seguinte sexta-feira (4 de Março) o Coliseu estaria na plenitude de uma lotação esgotada.

Enquanto isso paira no ar uma música ambiente portadora de uns Heróis do Mar, Sétima Legião e Entre Aspas. Uns bons 15 a 20 minutos para lá da hora marcada e desce uma escuridão sobre a sala. Uma bola de luz surge no meio da penumbra e permite descortinar duas figuras que aparecem em sombreado. Pouco depois surgem em cena Jorge Palma e Sérgio Godinho. O primeiro com uma camisa esbranquiçada e o outro, por contraste, com uma escura. A banda, essa já está há alguns momentos no palco.

“Lá em Baixo” (Campolide, 1979 – Sérgio Godinho) abre as hostilidades e entra cadenciado, mas logo vai em crescendo enérgico nesta abertura das cortinas para o espectáculo Juntos. As duas vozes combinam bem e o suporte da banda mostra ‘entrosamento musical’ com a dupla que nesta altura está em parceria a tanger guitarra acústica.

O público não tardará a perceber que há algo de Bud Spencer e Terence Hill nesta dupla de cantautores: é que ‘Juntos’ são (mesmo) … dinamite! “Horas Extraordinárias” (Coincidências 1983 – Sérgio Godinho) segue os passos da música inicial, com uma boa alternância de vozes. “Dá-me Lume” (Bairro do Amor, 1989 – Jorge Palma), muito saudado pelo público, viaja pela sala com Palma já sentado ao piano e o palco inflamado de cor vermelha. O jogo pendular dos holofotes faz a sua primeira aparição, num sainete visual de estética assinalável.

A banda, por seu turno, tem ao leme na direcção musical Nuno Rafael e Pedro Vidal, nas guitarras, João Correia e Sérgio Nascimento ‘a domar’ as duas baterias e percussões, Nuno Lucas no baixo e João Cardoso nos teclados. E há-de (com)portar-se muito a preceito ao longo de duas horas.

Em “Minha Senhora da Solidão” (Bairro do Amor, 1989 – Jorge Palma) Sérgio Godinho está defronte a Palma, do outro lado do piano, e a canção insinua-se no espaço como um dos temas cuja força poética mais se impõe no concerto. Aquela sonoridade de carrilhão que a música patenteia a espaços é tão expressiva que acaba a ficar no ouvido. O canto grave de Palma casa bem com o tom aparentemente mais informal de Godinho.

E eles próprios sugerem: “Mudemos de Assunto” (O Irmão do Meio, 2003 – Sérgio Godinho), as duas baterias parecem entrar em despique na batida certeira e os cantores alternam as vozes em harmonia, eles que permanecem sentados, tendo por companhia o piano. “Só” (Bairro do Amor, 1989 – Jorge Palma) entra logo a seguir, naquela toada de serpentear pianístico de Palma. Sérgio Godinho que estava de pé com o microfone na música antecedente, volta para a cadeira. O refrão é cantado em duo.

“Santa Apolónia arrotava magotes de gente…”, o canto de palma anuncia a icónica e homónima do álbum “O Lado Errado da Noite” (1985 – Jorge Palma), um acto testemunhado pelo tom azul e cinzento do ciclorama e onde as guitarras fazem ecoar uma sonoridade intensa, a par dos teclados.

Na composição seguinte Sérgio Godinho está de pé, com uma guitarra nas mãos e faz uma introdução antes da abordagem musical: “Todas as epopeias têm também um lado negro…”, numa alusão aos Descobrimentos, e assim entramos no reino d’ Os Conquistadores (Campolide, 1979 – Sérgio Godinho). “O Elixir da Eterna Juventude” (Tinta Permanente 1993 – Sérgio Godinho) apanha-lhe o gosto e segue em ritmo crescente e agitado. “Frágil” (Bairro do Amor – 1989, Jorge Palma), revela-se como um dos momentos altos do espectáculo, aquilo que em registo discográfico é reconhecido pelo seu ritmo quase jazzístico no plano instrumental, tem aqui direito a um arranjo versátil, soa a rock & roll, bem como a um excelente solo, feito em grande pose na guitarra, de Pedro Vidal e a palavra “Frágil” torna-se a palavra mais forte, pelo menos temporariamente, no Coliseu, proferida por centenas de almas.

Logo depois ficam de novo juntos e a sós no palco: Palma ao piano e Sérgio em frente a ele, numa epifania entre amigos, e o pretexto desta vez é “Quem És Tu de Novo?” (É Proibido Fumar – 2001, Jorge Palma). Pouco tempo depois, ‘os 135 anos em palco’ estão de pé e de guitarra em punho a cantar uma versão de “It’s All Over Now Baby Blue”, de Bob Dylan, como que a celebrar uma amizade selada pela chancela de referências musicais. E saem-se bem no saldo desta aposta.

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Soam os acordes arranhados na guitarra acústica de Palma a indiciar “Na Terra dos Sonhos” (Qualquer Coisa Pá Música, 1979 – Jorge Palma) e ‘A Noite (ainda não está…) Passada’, mas é a ‘senhora canção’ que se segue (Pré-histórias, 1972 – Sérgio Godinho) e também é aqui que a banda regressa para acompanhar os dois numa das composições mais bonitas da noite (não, não devemos enjeitar a adjectivação).

“Dancemos no Mundo” (O Irmão do Meio, 2003 – Sérgio Godinho/Clã), a tal música que esteve para se chamar ‘Fronteiras’ e que até ostentou esse título inicial, a quem Sérgio Godinho neste regresso à sua cidade-natal aproveitou para dizer, em tom de dedicatória “É preciso dizer que nestes tempos conturbados que vivemos… esta canção é dedicada aos migrantes e refugiados”. Claro que o aplauso foi imenso. “Acesso Bloqueado” (Mútuo Consentimento, 2011 – Sérgio Godinho) tem aqueles teclados que soam a uma carrossel e a um ritmo festivo. Palma senta-se de novo ao piano e desta vez é para pôr a audiência ao rubro: “Deixa-me Rir” (1985 – Jorge Palma) ganha fôlego e expressão com a energia (quase se diria… cinético-musical) da banda. Os cantores estão em sintonia, mas a verdade é que já é um coro colectivo a entoar um dos temas mais emblemáticos de Palma.

A letra de “Portugal, Portugal” ouvida na actualidade faz ainda mais sentido do que à data da sua criação, a verdade é que isso aconteceu no concerto com diversas letras das composições de Sérgio e de Palma cuja expressividade, qual Vinho do Porto, ganhou fulgor com o tempo.

E a confirmar a validade da asserção precedente, surge logo em seguida “Espalhem a Notícia” (Canto da Boca, 1980 – Sérgio Godinho), uma vez mais com Palma ao leme do dominó a preto e branco das teclas do piano e o portuense de pé a expor-se num canto sentido e a ser secundado pela voz volumosa de Palma mais adiante e pelo virtuosismo de Nuno Rafael na guitarra.

“Onde Estás Tu Mamã?/Canção de Lisboa” (Asas e Penas – Jorge Palma, 1984) e “Lisboa que Amanhece” (O Irmão do Meio, 2003 – Sérgio Godinho) vão para o palco quase de mão dada, qual canções enamoradas.

Com a jornada festiva de “Juntos” quase a despedir-se do Coliseu, “Liberdade” (À Queima-Roupa, 1974 – Sérgio Godinho) ganhou asas e sobrevoou a sala de lés-a-lés.

Ao abandono do palco, seguiu-se um encore solicitado a alto e bom som. Regresso consumado. Palma arrisca e canta “A principio é simples…”, “O Primeiro Dia” (Pano-Cru, 1978 – Sérgio Godinho) e o público vai aderindo ao tema, Sérgio entra no tema, há por certo erupções cutâneas a campear nas dermes. E em “A Gente Vai Continuar” trocam uma vez mais e começa com Sérgio na voz. Novo regresso ao palco em versão acústica para “Bairro do Amor” (Té Já, 1977 – Jorge Palma) primeiro e uma versão folk (com direito dois banjos e tudo!) de “Encosta-te a Mim” (Vôo Nocturno, 2007 – Jorge Palma) ambas com os cortinados verdes do palco fechados. E para epílogo, toda a gente regressou “Com Um Brilhozinho Nos Olhos” (Canto da Boca, 1980 – Sérgio Godinho) a casa.

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Em resumo, um encontro entre dois dos maiores cantautores portugueses, marcado pela força expressiva das composições e das letras e do notório prazer que têm em estar em palco. Se já seria bom desfrutar de um deles em palco, os dois “Juntos” convertem a generosidade da dádiva musical a quem os presencia num plano elevado. Mesmo com os pequenos desacertos aqui e ali entre os dois, a imperfeição destes humanos é assaz apreciável, e em boa verdade, perfeito, perfeito, só um presidente de câmara no Brasil.

Texto: João Arezes

Fotos: Diogo Baptista

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