Jan Martens no Rivoli – A dança enquanto modelo estético da exaustão…

Entra-se no Rivoli, ainda com as luzes acesas, os assistentes de sala tentam de forma diligente e simpática meter nas ‘gavetas dos sentidos’, vulgo ‘lugares sentados’, os últimos espectadores. No palco há corpos que se vislumbram ao fundo, atletas- bailarinos ou bailarinos-atletas que se perfilam no linóleo, que não fora a cor negra do material e bem podia ser uma pista de tartan. E eles afinam por este diapasão de maratona, aliás vão afinar ao longo de uma hora e 15 minutos, sensivelmente.

“The Dog Days Are Over”, do coreografo belga Jan Martens, está prestes a começar e vai devolver-nos ao olhar uma alegoria da nossa própria vida, este ‘running’ da moda que mais não é do que o próprio quotidiano que palmilhamos. A vida ‘a… salto’, como se vai poder comprovar.

Regressemos ao Rivoli sem sequer termos saído dele. Há pares de sapatilhas ordenados quase à boca de cena. As sete raparigas e um rapaz que compõe o grupo de intérpretes chegam-se à frente para se calçarem, o prólogo finda aqui.

O salto é contínuo, quase sincopado, e começa por ser ligeiro para a frente e para trás. Os maratonistas da dança formam uma linha horizontal e vão rodando de forma progressiva, como um ponteiro, até ficarem todos de costas viradas para o público. Invertem o sentido posicional e estão novamente de lado, com a cabeça virada para a plateia. Não tardará a perceber-se quão fatigante será a jornada, a coreografia dispensa a riqueza de movimentos, é quase minimal, repetitiva, subjaz a intenção de que o próprio espectador deve ficar cansado.

O carrossel humano desconfigura a linha de corpos agrupados. Movem-se agora em círculo e em expansão a partir de um ponto central do palco afastam-se para as laterais em feixe divergente. Reagrupam-se de novo. A matéria anatómica faz-se ao jeito de moléculas saltitantes e o palco transforma-se a espaços num pequeno universo atomizado. Nada dispensa o salto, ininterrupto desde o momento inicial. E em determinados momentos é possível percepcionar uma elegância de trote cavalar, com alterações formais para um registo de bailarinas do célebre ‘Folies Bergère’. Noutros instantes parecem evocar memórias da infância, como jogar à macaca ou saltar à corda.

créditos: Piet Goethals
créditos: Piet Goethals

Nesta espécie de ginásio, os corpos são as próprias máquinas num desafio levado ao limite. Retomam a linha oblíqua e os saltos assemelham-se a um compasso musical, sempre ritmado e constante. Alternam a voz de comando entre todos elementos e debitam contagens numéricas para cada um dos exercícios. O suor brilha nos rostos e mancha-lhes o guarda-roupa atlético.

Segue-se um estalar de dedos enérgico, alinhado, e em jeito de andarilho descontraído. E logo depois, uma espécie de ‘giroflé saltitante’, a luz vai desaparecer em gradual decrescência como a vida, não sem que antes, contaminados pela adrenalina reinante, os intervenientes continuassem a demonstrar, por via de uma pose atlética e guerreira, que poderiam estar ali mais umas horas em exercício extenuante. A metáfora da condição humana num desafio corporal levado ao extremo passou do palco para a plateia. Até o público ficou positivamente cansado. Alguém impressionado com o que acabara de ver e, sobretudo sentir, reiterou isso mesmo com um proverbial e prosaico ‘prejudique-se’ à moda do Porto no final da ‘maratona’.

Texto: João Fernando Arezes

Foto: © Piet Goethals

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