E foi em dia abençoado e marcado pela generosidade, apesar de tudo, contida de S. Pedro que tudo começou no Nos Primavera Sound. A disposição do espaço, em pleno Parque da Cidade, está diferente em alguns pormenores: primeiro estranha-se e depois logo se entranha.

SENSIBLE SOCCERS _ 1º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
SENSIBLE SOCCERS
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À hora marcada os lusitanos Sensible Soccers entraram no palco Super Bock e conseguiram extrair os primeiros balanços anatómicos à mole humana que não gosta de perder pitada destas coisas e por isso não dispensa os momentos iniciais das festividades melódicas. Deve dizer-se que estiveram bem melhores do que as U.S. Girls, que lhes sucederam no programa, a prestação soou monocórdica desde que subiram ao palco principal, a verdade é que saíram sem qualquer manifestação de nostalgia por parte de quem assistia. Por esta altura já o ‘Edén’, vulgo Parque da Cidade, começava a ser invadido por tágides coroadas de flores que iam integrando, de forma aleatória, a miríade.

U.S. GIRLS _ 1º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
U.S. GIRLS
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De volta ao palco Super Bock e com os Wild Nothing no estrado a conversa, perdão, a música foi outra. Os norte-americanos foram os primeiros a sair do ‘est(r)ado’ de lume brando e concederam uma actuação de uns bons 50 minutos, com aquele shoegaze elegante que os caracteriza e Jack Tatum sempre na liderança da brigada oriunda da Virgínia. Tocaram temas do álbum seminal “Gemini”, de 2010, “Nocturne”, de 2012, e do derradeiro “Life of Pause”, do presente ano e bem pode dizer-se que os presentes saíram muito agradados com a actuação dos cinco músicos e do seu diapasão que se afirma entre o binómio indie-pop e indie rock. Um regresso da banda e que se saúda após a passagem pelo festival em 2013.

WILD NOTHING _ 1º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
WILD NOTHING
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Na passagem para o palco NOS, naquela toada de formiga(s) no carreiro, os peregrinos musicais lá iam carregando as mochilas e as expectativas para o que se seguia e valeu bem a pena ansiar pelos Deerhunter, também eles norte-americanos, oriundos de Atlanta, na Georgia. A banda liderada pelo carismático Bradford Cox (que com um certo ar liceal de chapéu castanho, casaco e gravata desapertada fez lembrar a espaços e ligeiramente um tal de Young dos AC/DC), deu muito boa conta de si ao longo de uma hora. E ao longo deste tempo passaram em revista quase dezasseis anos de existência. Foi bom recordar “Cryptograms”, de 2007, mas não foi menos entusiasmante a audição de temas de outros álbuns mais próximos da actualidade, como é o caso de “Monomania”. A diversidade rítmica patenteada foi tributária da maior atenção por parte do público, mesmo que uma gaivota que teimava em perseguir um drone, tivesse desviado temporariamente alguns olhares do palco.

DEERHUNTER _ 1º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
DEERHUNTER
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E como o alinhamento teimava em não sair do espectro geográfico da América do Norte, foi também com a californiana Julia Holter que as hostes ficaram amansadas. As canções povoadas de fantasia melódica como “Feel You”, “Silhouete” ou “Sea Call Me Home” foram desfilando uma após outra, sempre com a voz-guia e os teclados de Julia a comandar o contrabaixo, a bateria e a viola de arco. O tom doce e aveludado da voz progride e cativa os circunstantes e o diálogo instrumental e o jogo de vozes fazem o resto. Na essência, música para quem quer apreciar somente música este concerto de Julia Holter e que apesar do intimismo misterioso que a povoa tem espaço num festival, de resto como ficou comprovado.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
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E a ansiedade pelos Sigur Rós levou ao maior ajuntamento previsível de gente junto ao palco NOS. Há papéis brilhantes e de diferentes tonalidades a esvoaçar por trás do palco, que constituem um bom prenúncio. Com um atraso de 10 minutos face ao estipulado, os islandeses apresentam-se no interior de uma caixa hermética gradeada, explodem constelações no ciclorama. “Óveður” inaugura e “Starálfur” prossegue com alusões estelares e a voz de Jónsi a povoar o espaço. O ambiente ‘ciber… hermético’ continua a dominar até ao momento em que os músicos saem da caixa e a bateria de Orri Páll e o baixo de Georg Hólm acompanham com intensidade aquela voz celestial do vocalista. Jogos geométricos são projectados no palco, numa estética formal a todos títulos irrepreensível.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
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Jónsi continua a afagar as cordas da guitarra com o arco na prossecução daquilo que em toada vox populis poderíamos designar por ‘desbunda musical’. “Glósóli” entra naquele registo manso, mas vai em crescendo, em toada de marcha, e o público vai-se enleando naquele novelo melódico de incontornável beleza. Os Sigur Rós não o fazem por menos, eles que vêm da terra dos 300.000 estão dispostos a encantar os 25.000 que o Parque da Cidade acolheu. Em “Vaka” somos transportados para um universo que de tão vermelho se assemelha incandescente e sempre pelo espectro vocal de Jónsi.

Momento prosaico: cheira a ‘chulé de marijuana’ nas redondezas e dá para nos questionarmos porque haverá gente que viaja através da agência ‘Psico… Trópicos’, se os Sigur Rós estão a demonstrar serem uma autêntica ‘ganza intergaláctica’?!

Passemos dos considerandos e demais efabulações de novo para o palco, onde islandeses já estão numa das mais belas do seu repertório e a conquistar erupções cutâneas por parte do público, falamos obviamente de “Ný Batterí”. O alinhamento passa ainda por “E-Bow”, pela melódica “Festival”, que ganha estaleca rítmica cadenciada por parte da bateria e do baixo até ao final. Com “Yfirborð” e “Kveikur” pressente-se o final, que acontece com a magnífica “Hafsól”, a tal em que Georg toca baixo com baquetas. O público está rendido, acaba de assistir a um concerto modelo épico dos ‘enviados Reiquiavique’, mas ainda (re)clama por um encore. “Popplagið” encerra a epifania musical. ‘A Islândia entra a ganhar neste Campeonato do(e) Primavera’.

Depois disto já nada será igual. Mesmo que num momento subsequente o garage punk dos Parquet Courts venha a agitar os corpos banhados por uma visita esperada dos céus. Boa prestação dos de Brooklyn no palco Super Bock a antecipar a actuação d Animal Collective, ainda deu para balançar a anatomia ao sabor de uma dança da chuva.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
NOS PRIMAVERA SOUND 2016
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Os Animal Collective, por quem muitos esperaram até à uma da manhã, deram um concerto esperadamente profissional. Centrado no último álbum, “Painting With”, mas com incursões a registos mais antigos. “Hopus Cocus”, “Natural Selection” FloriDada” já tinham ficado no armazém auditivo dos fãs mas os conterrâneos dos Beach House, ambos de Baltimore, ainda fizeram esticar as pernas e abanar a cabeça a muito boa gente. Da atmosfera criativa dos Animal Collective e do seu elemento quase ‘luso-americano’ Noah Lennox, aka ‘Panda Bear’, tudo é de esperar.

DJ Fra já estava nos sets e os Red Axes começaram a so(u)ar por volta das duas e meia da manhã, numa jornada com direito a entrar pela madrugada dentro a cargo de John Talabot & Friends. Hoje há mais e para todos os gostos em 4 palcos do Nos Primavera Sound.

Texto: João Fernando Arezes

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