‘Im…Peaches… ment’ da normalidade na Casa da Música [com galeria]

Com a expectativa ao rubro, todos esperavam a sacerdotisa musical do sexo, que o mesmo é dizer Peaches. E a canadiana entrou praticamente a horas e a todo gás com “Rub”: ‘Feel free, come with me…’. Saltou para um estrado com degraus em ambos os lados, situado bem no centro do palco da Sala Suggia, na Casa da Música. A agitação e um guarda-roupa assemelhado ao de um careto transmontano, ainda que monocromático, encimado por uma espécie de meio turbante e meio chapéu em que figurava uma vulva bem representada no centro.

Pouco depois retira a indumentária inicial e fica com um fato beije colado ao corpo que ostenta uma série de mãos tacteantes. Arrisca poses lascivas em cima do estrado e permanece disposta à devoção dos fiéis.  “Vaginoplasty” apresenta-se a seguir e duas acolitas de gosto arrojado ladeiam o estrado. Têm o rosto coberto com máscaras cujo motivo temático é o sexo feminino, com os lábios vaginais bem vincados e utilizam de igual forma perucas a imitar cabelo encaracolado, de cor vermelha. São precisamente estas assistentes quem liberta a guru sexual das vestes iniciais.

“Talk To Me” é o tema seguinte, a artista é a agente da mudança das programações registadas às quais empresta a voz e a acção performativa inerente, que é a todos os títulos vibrante e contamina os circunstantes em doses de agitação permanente. A iconografia é eminentemente sexual, com direito à ostentação de dildos e chicotes e as línguas bem estendidas para fora dos lábios. “Close Up”, a célebre música em que Peaches contracena com Kim Gordon dos Sonic Youth no vídeo oficial, é a seguinte a ecoar na sala, luzes violeta e também de cor branca marcam a atmosfera. O público vai ficando conquistado por aquele ambiente em brasa.

E não tarda nada vemo-la passear quase por cima do público, com uma bóia muito sui generis ao pescoço, nada mais, nada menos do que uma vagina (com lantejoulas), é óbvio. O regresso ao estrado faz-se com encenações de feras amansadas por carrascos de aparência sadomasoquista. “Boys Wanna Be Her” ganha lastro com Peaches a cantar a todos os pulmões e as lúbricas assistentes a entrarem numa toada de luta do tipo wrestling em pleno estrado.

Em “Dick in the Air” o ambiente está electrizante, a canadiana e as sócias abrem garrafas de espumante e despejam-no pelas gargantas que mendigam o néctar lá mais na frente. A provocação é constante e com o seu quê de burlesco. O público grita com a cantora: “Dick!DIck! Dick!” e as assistentes há muito fizeram topless ainda que com os mamilos cobertos com uma espécie de papel autocolante, o mesmo faz a performer canadiana quando regressa ao palco. As acompanhantes aproveitam para satirizar com ironia a pose de adoração feminina para as selfies.

Tempo para outros temas, como “Dumb Fuck”, que foi um dos mais celebrados. E por fim, depois de um reclamado encore apresenta-se com uma luz na geografia vaginal para o momento de “Light in Places”. É o delírio colectivo de um ritual feito concerto. Duvidamos que muitos dos que presenciaram o espectáculo tenham percebido que ali naqueles temas, poses e performances residam libelos de luta em favor de questões de género, à libertação sexual feminina e à demonstração espelhada de como a mulher é vítima da repressão sexual.

A cerimónia ritualizada acaba em registo Onda Choc, com algumas raparigas ainda adolescentes a envolverem a canadiana num derradeiro, simpático, mas inusitado regresso ao palco para findar com “I Mean Something”. Um espectáculo impróprio para puritanos, após as actuações de Moulinex e Da Chick em mais uma edição do NOS Club.

Texto: João Arezes

Fotos: Diogo Baptista

 

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