Humoristas ao poder

Cara/o concidadã(o):

Quero falar-te de um assunto que preocupa deveras os humoristas do País: o desemprego. Já sei, dirás que o desemprego é um flagelo social transversal que afecta não apenas os humoristas. Errado. Se o povo come menos pão é lógico que genericamente se veja menos o padeiro; se o povo compra menos legumes é evidente que há mais agricultores a coçar os tomates; se o povo não tem dinheiro para consultar o alergologista é natural que mais destes médicos se entretenham a coçar a micose; e por aí fora.

Ora, com os humoristas o caso é bem diferente: o povo continua a consumir humor com igual, ou mais até, avidez e fervor que antes da crise se instalar comodamente nas suas casas. As pessoas precisam, hoje, de sorrir e rir cada vez com maior frequência, sobretudo em tempo de vacas magras (mas que, lá está!, sorriem). O humor é, aliás, um dos produtos nacionais de exportação que mais contribui para o equilíbrio da balança comercial — repara que não falta, na Europa como no resto do Mundo, quem se farte de rir dos portuguesitos e da triste dieta que seguem rumo à austeridade mórbida. Portanto, a nível de procura estamos conversados.

O problema está, pois, na oferta: os humoristas são vítimas de concorrência desleal orquestrada e maquiavélica. Não, não estou a brincar. Explico: por exemplo, o Ricardo Araújo Pereira trucida dezassete neurónios a inventar uma piada sobre desemprego, chega o Passos Coelho e afirma que “o desemprego é uma oportunidade para mudar de vida”. De quem é que o povo se ri? Outro exemplo: o Herman José esfola-se a criar a personagem humorística de um vidente astrológico bem caracterizado, com guião, maquilhagem e guarda-roupa a preceito, salta o Vítor Gaspar e espeta com três ou quatro previsões daquelas a fazer lembrar um cego numa sanita à caçador (com o máximo respeito pelos invisuais, que são, apesar de tudo, mais clarividentes que o ministro). De quem é que o povo se ri? Ainda um derradeiro exemplo: o Bruno Nogueira vai (literalmente) ao osso da nossa saída de fininho do Festival Eurovisão da Canção para tentar sacar 100 magros gramas de gargalhadas, e nisto o Relvas espalha-se ao comprido a entoar o “Grândola Vila Morena não-sei-quê-ade”, qual herói nacional do Curso Superior de Karaoke. De quem é que o povo se ri?

Penso ter deixado claro que ser humorista neste Portugal dos pequeninos é dose de cavalo — e com esta não se preocupa a ASAE. Os políticos, não satisfeitos com a sua condição estrita de políticos, aproveitam a mínima janela de oportunidade para saírem do armário e esboçarem uma graçola, fazerem um trocadilho catita no seu tempo de antena ou darem azo às suas vocações circenses de palhaços ricos e malabaristas da vida alheia.

Bem sei, o apelo do mercado de trabalho (a expressão é pouco actual, digamos antes feirazita) é cada vez mais no sentido da polivalência. Mas onde é que ficam os humoristas no meio desta usurpação cobarde? Hão-de ficar sem-graça!? Jamais.

Cara/o concidadã(o), a solução é simples: se os políticos fazem humor, os humoristas devem fazer política. Pela parte que me toca, assumo total disponibilidade para uma integraçãozita na Presidência do Conselho de Ministros, de preferência com efeitos retroactivos de dois anos e tal. O que me falta em experiência de espionagem compenso com a capacidade de fazer promessas eleitorais daquelas que, mais tarde ou mais cedo, só dão risota.

Renato Filipe Cardoso
 

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