Habeas Corpus no ‘Carlos Alberto’ – Tratado poético da anatomia em movimento

O epíteto de espectáculo de dança-teatro que Habeas Corpus – Que tenhas o teu corpo é portador de uma espécie de ‘teologia da libertação’ para ambas as artes performativas. Ruben Marks, o mentor da peça e que tem, por conseguinte, a responsabilidade da concepção, texto, direcção e espaço cénico da mesma, explora um conceito que namora “Spartacus” na exigência libertária do corpo e da condição estatutária do ser humano.

A ambivalência da condição corporal radica na premissa de que o “O corpo da violência é também o corpo do amor.” E todo o novelo se desenrola a partir deste binómio que nos foi dado a ver no Teatro Carlos Alberto, no Porto, entre 26 e 28 de Fevereiro. Sabe-se que Marks é um esteta de dupla nacionalidade, que foi banhado por duas culturas geograficamente distintas, a mais setentrional que deriva das vivências na Suécia e a meridional correspondente ao solo lusitano onde nasceu (Marinha Grande). Os dois universos distintos são perceptíveis e assumidos pelo criador: também ele um poeta apaixonado pela dança, pelo movimento e pela interpretação – a prova disso mesmo é a obra impressa “A outra Linguagem da Dança”, de 2014, uma autêntica cartilha ‘poÉtica’, de leitura imperativa.

E do autor passamos para o palco. O primeiro quadro é enfático quanto à condição feminina, numa espécie de Livro do Génesis, em que Joana Lopes se apresenta face a um espelho baço da condição humana que desce dos céus. Pode dizer-se que em boa hora a bailarina agarra a oportunidade para assumir o protagonismo concedido através de um exercício de superação da estatura que a guinda um nível de flexibilidade assinalável e uma expressão corporal intensa.

Segue-se um braço-de-ferro de dominação anatómica homem-mulher em que a fisicalidade é o vector dominante. Alguém permanece enjaulado num quadro visual que nos remete para o filme “Birdy”, de Alan Parker. Um homem nu numa cela, qual pássaro numa gaiola, que acaba por ser libertado e no cubo-base dessa cela está também uma mulher seminua e presa e cujo destino vai também ser o da posterior libertação. A dialéctica do corpo livre/corpo aprisionado reina aqui numa versatilidade bem patente da expressão corporal de um elenco artístico jovem a que a veterania da actriz Teresa Chaves (também na assistência de encenação) toma as rédeas, num contrabalanço positivo.

E o corpo aqui é todo ele uma linguagem: há corpos que se arrastam e embalam em suspensão num desafio de levitação, na busca de uma transcendência, como naquele momento em que Inês Clavel sobe e se liberta de solo terreno. A luta corpo-a-corpo protagonizada por José António e Tiago Martins e o sangue sugestivo que se projecta e escorre no ciclorama espelha a mensagem inicial. E após o combate masculino verifica-se a disputa feminina. A toada sequencial da erupção dos corpos e da erosão dos corpos que se digladiam, a antítese entre o dominador e o dominado. As escolhas entre a Liberdade e a Servidão, tal como é referido a determinada altura por Teresa Chaves: “A liberdade coloca-nos questões, a Servidão retira-nos o medo de pensar!”.

No plano dos afectos há corpos que se tocam em afagos preenchidos por algum erotismo insinuante, corpos que planam e transmitem ao espectador a sensação de beleza e graciosidade.

Na memória visual fica aquele quadro quase final da árvore solitária e de uma dança que aparentando ser quase tribal se contrapõe a incitação guerreira e se pauta por uma notória afectuosidade entre os elementos, com a cor vermelha alaranjada do ocaso a pairar nos corpos entrelaçados. Sim, o anagrama de Roma também andou, e de que maneira, por ali.

Texto: João Fernando Arezes

Fotos: Susana Neves

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments