‘Furacão Santana’ varreu o Multiusos de Gondomar

Nada melhor do que poder contar com recepção a uma lenda viva, como é o caso de Carlos Santana, feita por dois gigantes como Bob Marley e Michael Jackson, que entre outros ecoaram no Pavilhão Multiusos de Gondomar, antecipando a entrada em palco do guitarrista mexicano e da sua trupe musical.

O público expectante revela um perfil transversal em termos etários e num vislumbre em redor percebe-se que se situa numa larga faixa entre os 30 e os 60, que é a prevalecente. Com efeito, será bom relembrar a propósito que Santana acabou de completar 69 anos de idade. O legado ‘santanista’ percorre as gerações de pais para filhos e destes para os netos.

Com um ligeiro atraso de cerca de dez minutos, que se explica pela espera de público cuja demora se deveu ao denodado tráfego que entupiu a entrada naquela localidade da periferia portuense, os 9 elementos entram no estrado sem concessões a qualquer tipo aquecimento, com “Soul Sacrifice”, um dos temas mais simbólicos da participação de Santana no mítico Festival de Woodstock, em 1969. E há imagens dessa altura, que se reportam às tão badaladas danças na lama a ilustrarem a música, projectadas na zona cimeira do palco. Uma entrada de leão, muito saudada pelo público em mais um concerto desta Luminosity Tour 2016.

Santana está de fato branco, chapéu da mesma cor (com uma espécie de pérola vermelha no centro) e veste também uma t-shirt vermelha. O braço da guitarra percorrido com frenesim espelha aqueles riffs tão típicos e um autêntico muro de percussão apoia o líder. E se não tivemos direito a ouvir o histórico Michael Shrieve na bateria, que à data da apresentação em Woodstock tinha apenas 20 primaveras e encantou toda a gente, a verdade é que Cindy Blackman, a companheira de vida de Santana, se mostrou a todos os títulos impressionante e não deixou os seus créditos por ‘pratos e peles alheios’.

Em abono da verdade, o naipe de músicos que acompanham um autêntico ‘rompe-escalas’ chamado Carlos Santana, é do mais fino trato musical, para além de Cindy, os instrumentistas dos timbales, Karl Perazzo, e das congas, Paolí Mejías, passando pelo baixo a cargo de Benny Rietveld e pelos teclados de David K. Mathews até às vozes de Andy Vargas e Ray Greene (dá uns ares de Seal… e está também no trombone) e pela guitarra de Tommy Anthony, estiveram em elevado índice performativo.

Segue-se “Love Makes the World Go Round”, uma versão do tema original de Deon Jackson marcado por um ritmo cadenciado e vibrante, as luzes projectadas são agora de cor vermelha e os teclados afirmam-se insinuantes no espaço, com aquela capacidade de enlear quem ouve e Ray Greene faz accionar a espaços o trombone de que é portador. A guitarra dourada continua endiabrada a soltar solos extasiantes que o público aprecia com demonstrações ruidosas quando este abranda a intensidade rítmica nas cordas eléctricas.

Em “Freedom in Your Mind” aproveita para improvisar um discurso em que alude à paz, harmonia e amor necessários à vivência do nosso quotidiano. “Isto é tudo o que deve comandar a nossa vida!”, sustenta. Logo depois soa no pavilhão “Maria, Maria”, tema que naquela toada reforçadamente latina se converte em acendalha musical e enzima para mais um desempenho exímio na guitarra. Santana acerca-se da assistência e concede a um miúdo um instante para a posteridade, este seguro pelo pai, roça com frenesim uma palheta na guitarra do mexicano. Uma experiência que tal como o quadro de Dalí se vai revelar com “Persistência (n)da Memória” para ambos: criança e progenitor.

E com “Foo, Foo” entramos na plenitude de uma festa caribenha, muito participada por parte do público: agitam-se as mãos dos cantores e as bancadas e a plateia não tardam a reproduzir os gestos num efeito mimético de bela estética. A música finda em total comunhão entre os músicos e o público.

“Samba pa ti”, é ‘o senhor que se segue’, um tema imortalizado à escala universal (e que em Portugal será sempre lembrado à custa de um spot publicitário televisivo que iniciava com alguém a perguntar: “Está em alguém casa?”). Uma desbunda pegada, bem pode dizer-se sob a forma de vox populis, em que Santana antecipa um convite à dança em toada slow, proferindo a sentença: “É um tema dedicado ao Amor.” Há casais enlaçados que ocupam o espaço e se mostram dispostos a cumprir o acórdão. E depois, bom e depois há aquele solo elegante e distendido só ao alcance dos eleitos.

“Corazon Espinado” traz de volta a mescla ritmada de salsa, funk, jazz e rock. O pavilhão, que revela uma acústica muito apreciável para o tipo de estrutura, está ao rubro. As vozes, a guitarra penetrante do quase septuagenário (não se nota nada), a percussão e os teclados matizam o ritmo. “Jin-go-lo-ba” cheira a África e a América Latina e é um catalisador para o diálogo frenético entre a guitarra de Santana e a bateria de Cindy, já mais no final do tema. O baixista aproveita o ensejo para explanar um solo de grande intensidade e que culmina com um momento de difícil adjectivação protagonizado por Cindy na bateria, alguém alvitra a preceito ao nosso lado: “Moby Dick!” e não, não se trata do solo de John Bonham, dos fabulosos Led Zepplin, mas anda lá perto. A todos os títulos, um feito impressionante da ‘Black Magic Woman’.

Logo a seguir um estímulo ao balanço com “Evil Ways”, tema marcado pelo característico serpentear sonoro dos teclados em combinação com a percussão.

Por esta altura há gente que abandona de forma avulsa a parte mais próxima do palco, sem que isso se note de todo, mas o calor intenso que se faz sentir é disso responsável. “Love Supreme”, um original de John Coltrane, entra de mansinho e vai ganhando fulgor. A guitarra, elemento nuclear, vai galgando terreno e irrompe por ali fora e só Santana a consegue domar. A chancela da percussão a fazer-se notar no acompanhamento, bem como o órgão, a guitarra e o baixo. E claro, o trombone obrigatório.

Há uma dimensão espiritual, pode dizer-se celebrativa, e feita de uma matriz voodoo peculiar que é notória na música de Carlos Santana e que se torna ainda mais enfática quando o músico mexicano evoca sentimentos pelos quais devemos pugnar nas nossas vivências: “Queremos uma vida longa e livre de violência…”, defendeu a determinada altura do concerto. E juntou-lhe a paz de consciência, compaixão, perdão, entre outros sentimentos de índole positiva.

“Love, Peace and Hapiness” (dos The Chambers Brothers) prossegue neste sentido, em toda animada. “Freedom” e “Shine” deixam idêntica pegada, com os vocalistas a ganharem espaço, uma vez mais e com direito a solo no órgão. O concerto já vai longo, com umas duas horas e meia palmilhadas, sobram para o final as emblemáticas e efusivamente saudadas: “Black Magic Woman” e “Oye como va”, que deixam o público completamente rendido. O encore traz entre outras “Smooth”, a epifania memorável culmina três horas depois ao raiar da meia-noite e com toda a gente satisfeita, os do palco e os da plateia. E sim, curiosidade das curiosidades também pairou por ali um aroma a “Guajira”, tema homónimo do terceiro álbum de Carlos Santana, datado de 1971, algo raro a ajudar à bênção musical que foi este concerto.

Texto: João Arezes

Foto: DR

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