Fim de Estação

Estão a chegar uns dias de chuva, está a entrar o Outono. Com ele, é preciso queimar os últimos cartuxos ao sol e fazer tudo para guardar as energias dos dias quentes para o Inverno. O ideal é mesmo aproveitar estes dias e rumar ao Algarve para aproveitar o calor que restar e o peixe.

Praia e casas de peixe no Algarve há muitas, pelo que se pode deixar a escolha ao freguês, mas em Tavira recomenda-se uma visita ao “Vela 2”. Entre as horas de praia ou depois da praia.

O “Vela 2” é um local deliciosamente difícil de classificar. O espaço é amplo e moderno, pois substitui a sala mais acanhada que existia no centro de Tavira e que tanta gente se lembra das filas à porta para comer. A decoração é simples e luminosa, plena de motivos alusivos ao clube do seu dono, o Benfica, chegando o bar de quatro barras a ser uma réplica do novo estádio da luz. Curiosamente e com alguma ironia, a cerveja vendida é Super Bock! Termina com um pátio de grandes dimensões ao fundo onde se pode, nos dias quentes, usufruir do peixe ao ar livre.

Simples e direto é também o serviço. Não há muito por onde escolher e mesmo que houvesse a decisão é sempre a mesma: Peixe! À pergunta o leitor “que peixe”, responde o cronista “não sei”!

A verdade é que os comensais escolhem comer peixe e virá peixe para a mesa, mas aquele que estiver no ponto de grelha no momento. Não há escolhas. À medida que vão saindo da cozinha, a equipa de sala vai passando com a comida em pequenas travessas de grelhados e pergunta: “Sardinhas? Chocos? Salmonetes?” e deixa a travessa na mesa. Vai fazendo isso com todas as mesas. Uma delícia!

Ao meu prato chegaram Salmonetes, com a pele estaladiça e a sair muito bem, levando as espinhas do dorso, Sargos pequenos, com a carne branca e húmida a separar-se depressa da espinha, sardinhas grandes de rijas a gritar frescura (embora bem quentinhas) e ainda dois chocos grandes, brancos e tostados com o corpo consistente e a precisar de mastigação e as pernas delgadas e com mais sucos.

Pode escolher-se o que beber, mas infelizmente a lista de vinhos é muitíssimo curta e para além do vinho à pressão (que salva muitas almas quando as outras propostas são piores) não fugimos de 4 ou 5 referências alentejanas de entrada de gama. A opção foi para um Adega de Borba Branco de 2012, que foi servido à temperatura correcta nos copos largos e pequenos que estavam disponíveis. Enquadrado no ambiente, soube bem.

Os acompanhamentos são simples mas bons e complementam de forma tradicional o peixe grelhado. A salada mista chegou muito pouco temperada para que o cliente pudesse acertar o seu gosto, com o azeite, o vinagre e o sal disponível na mesa. As batatas assadas, provavelmente com uma cozedura prévia, precisariam de um pouco mais de forno, tinham um sabor intenso e também pediram azeite.

Quanto às sobremesas, ficam para outro restaurante, que este aqui centra-se no que sabe saber.

Afinal, o que é o “vela 2”? Um restaurante simples com bom peixe? Uma tasca “gourmet” (no sentido da apreciação da comida e não da elevação dos sabores e da experiência culinária)? Uma tão na moda “gastrotasca”?

Parece-me ser um local que acredita no que faz e faz bem, sem pretender ser aquilo que não é. É filosofia? É, com sabor a peixe em fim de estação. 

Texto e foto de Paulo Russell-Pinto

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