Com os concertos de apresentação do último álbum “Ensemble” à porta, o Global News foi ao estúdio de Rui Massena medir ‘o andamento do compasso’, que o mesmo é dizer, saber em que ponto estariam os ensaios nos preparativos para os concertos de hoje, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, bem como na ‘sala homóloga’ do Porto, no dia 7 de Dezembro.

Num espaço bem próximo da zona das Antas, na ‘Invicta’, assistimos a um ensaio em que foi perceptível uma carga pedagógica de afinação dos temas integrantes do novo registo do maestro, agora na condição diferenciada de compositor e instrumentista, e num contexto de liderança operacional do “Ensemble” que dá o nome ao disco.

Após um percurso em que começou por destacar-se na Orquestra Clássica da Madeira, da qual foi director artístico e maestro titular, entre 2000 e 2012, etapa profissional e de vida que lhe permitiu trabalhar com nomes sonantes do meio musical, como os de José Carreras, Ute Lemper, Wim Mertens, Guy Braunstein, José Cura, Ivan Lins, Mário Laginha e Bernardo Sassetti, seguiu-se novo trilho à boleia da iniciativa Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, da qual fez parte enquanto elemento responsável pela programação musical, bem como com a Fundação Orquestra Estúdio, estrutura na qual deixou a sua chancela pessoal.

Foto: Alexandre Bernardo
Foto: Alexandre Bernardo

Entre muitas facetas em que se notabilizou, conta-se o facto de ter sido o primeiro maestro português a dirigir um colectivo de músicos no célebre Cornegie Hall de Nova Iorque.

E se antes foi a “Solo” (nome do primeiro registo discográfico), agora é “Ensemble”. O ensaio a que nos dispusemos a assistir, permitiu perceber a existência de temas ocupados por simbólicas melodias, pontuadas aqui e ali pela beleza dos violinos e pelo violoncelo, com o piano sempre em afirmação e um contrabaixo a conferir elegância ao diapasão.

Começamos por ouvir o tema “Alento”, que já foi, num primeiro baptismo, “Eléctrico”: Rui Massena amacia os teclados e a melodia solta-se depois com os demais instrumentistas, como uma cavalgada a trote.

“Liberdade” entra logo em seguida, o piano marca a matriz harmoniosa com um intróito e logo após este prelúdio das teclas, é o violino quem primeiro apanha a boleia e os restantes juntam-se um pouco mais adiante. Os nossos ouvidos escutam uma música que irrompe em marcha intensa, mas com um caudal sonoro de irrepreensível estética melódica. Os músicos permanecem concentrados, mas revelam um grande à vontade, a espaços há uma ou outra interjeição valorativa de Massena, as correcções são aceites por todos com boa disposição e transpira algum entusiasmo na sala.

massena-3Vistos do ponto em que nos encontramos e dispostos em forma de um pequeno leque a envolver o líder, os instrumentistas prosseguem os trabalhos com afinco, sob o comando do ‘maestro pianista’: afinal o compositor tem o mesmo sobrenome do General Francês que comandou as tropas na Terceira Invasão Francesa de Portugal, o que sugere algumas metáforas a preceito.

No caso de “Dúvida” (certamente melódica), esta começa por espreguiçar-se no piano e assim distendida pelo toque aveludado das teclas entra em combinação com a fantasia insinuante do violoncelo e com a graciosidade do contrabaixo. E, sim, os violinos continuam por lá.

De vez em quando testemunha-se uma paragem para marcar os tempos, afinar aqui e ali, alterar pequenos aspectos, sempre na demanda de uma conformidade harmónica e versátil, onde Massena faz uso do seu ouvido clínico a tratar (d)os sons.

E segue-se um “Amanhecer” que desponta através de matizes sonoras que soam quase coloridas a partir das cordas, uma autêntica toada matinal a impor-se a quem escuta. Pouco depois, o ‘Ensemble’ está pronto a fazer-se à “Estrada”, que o mesmo é dizer, aos Coliseus.

Numa curta conversa com Rui Massena, o maestro deixou algumas pistas sobre o processo evolutivo do primeiro para o segundo álbum de originais “Nunca me dispo da condição de maestro, em “Solo”, como próprio nome indica, era eu, apenas, mas continuo a sê-lo também aqui, enquanto compositor, essa condição serve-me para o aperfeiçoamento… na ligação de todas notas, sejam as notas do piano ou as do Ensemble.” E prossegue: “Tenho a plena noção de que tudo o que fiz na minha vida foi de alguma forma para poder fazer isto, para existir através disto.”

E para melhor destrinça acentua “Solo é um álbum de recolhimento, após uma fase de vida de grandes sucessos, depois da Madeira, de Guimarães – Capital Europeia da Cultura, um recolhimento total.” Reflecte um pouco e continua a definição “É também mais desencontrado, as músicas entre si não possuem tanta ligação.” E enuncia o que podemos esperar do último álbum: “ No caso do ‘Ensemble’, é um disco em que já pretendo uma evolução artística, há uma preocupação com a unidade. E por outro lado, combina um lado emotivo com a vertente da tranquilidade. E curiosamente esta surge num álbum com pessoas dentro.” E sim, esta última frase é o convite directo para a existência de uma conformidade com “Ensemble”: a de uma sala com gente dentro. Uma ida ao Coliseu dos Recreios, hoje, com validade extensiva para a apresentação no Porto, no próximo dia 7, serão as melhores respostas ao desafio do maestro-pianista.

 

Veja uns segundos do ensaio a que fomos assistir

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