Passavam escassos minutos das 23h00, hora prevista para o início do espectáculo no ‘Sub-Palco’ do Rivoli, quando Emma Ruth Rundle surgiu vestida de negro, com uma camisa extensa ao jeito de uma túnica com motivos florais bordados na parte inferior (e já agora um vestido da mesma cor por baixo), a espe(a)lhar boa presença em palco. Assim, munida de uma guitarra acústica, a californiana, começou por brindar o público com “Run Forever”, tema onde a voz soa suave, doce, penetrante e sobretudo impressiva. Um início a prenunciar a intensidade do que se iria seguir nuns parcos 37 minutos, que mais não consagram do que o tempo de um simples show-case.

Em “Hand of God” reforça o diapasão, com um som preenchido que brota da guitarra e o público uma vez mais aprecia. O palco ‘Understage’ do Rivoli, com aquela atmosfera marcada pelo negro e as colunas de ferro espaçadas, proporciona um contacto de proximidade com a artista. E Emma, a cada tema volvido, ganha o respeito da audiência: há uma energia cativante que a torna luminosa no seio de um ambiente dark entrecortado por luzes brancas.

E assim, o propósito desta digressão para amostragem do último registo da norte-americana, o álbum “Marked for Death”, ganha fôlego e se Lisboa já se enamorou dela, a Invicta vai no mesmo caminho a passos largos. “So Come” entra logo a seguir, o calor na sala vai aumentando numa proporcional escala de sedução ao calor sensorial que Emma vai derramando a partir do palco. A cadência digna de um galope melódico. A adesão à feliz mistura entre canto e a guitarra intensifica-se e vai ganhando lastro pelos circunstantes. À impositiva profundidade sonora da guitarra soma-se uma voz poderosa. “Protection” faz apanágio da validade desse duplo virtuosismo.

Os efeitos sonoros ficam a perpetuar-se até que a guitarra acústica dê lugar a um outro exemplar de perfil eléctrico para a execução musical de “Marked for Death”, o tema homónimo do último álbum. As luzes tornam-se mais discretas na forma como branqueiam a escuridão a partir das estruturas metálicas que suportam os focos. O cabelo aparentemente algo arruivado, ou pelo menos acastanhado claro (coisas das luzes), apodera-se-lhe dos ombros. E por entre o ritmo melodioso, Emma destila a espaços alguma raiva no canto. Do embalo à cólera vai o passo de um anão.

Há um indisfarçável rasgo de emoção que a percorre desde o princípio do concerto e isso está prestes a tornar-se ainda mais notório. Mas os receptores estão na mesma dimensão sensorial, o contágio das vibrações activadas no palco banham o público de boa energia. Sem que sejam necessários grandes artefactos cénicos, técnicos e artísticos, o público está em definitivo conquistado.

E quando estamos a sentir-nos muito próximos do Éden há um “Heaven” que surge. Agradece no final do tema e está visivelmente comovida. Após um trago de cerveja, parte para um dos melhores temas do seu reportório: “Shadows of My Name”. E uma vez mais, fá-lo de forma tocante para deleite de quem ouve, elegante na pos(s)e da guitarra. Uma nuance para a guitarra acústica que afina e logo em seguida anuncia que “Real Big Sky” será o derradeiro tema da noite, para desapontamento de todos quantos presenciaram um momento musical tão digno de ser saudado. “Marked for Death” prevaleceu, mas “Some Heavy Ocean” também foi versado. Para próxima a cantora será forçada despender pelo menos uns módicos 74 minutos com o público.

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