Eisa Jocson no Rivoli – “A certidão de óbito artística” de uma pole dancer

A dança do varão, se quisermos evitar os estrangeirismos, é algo de uma dimensão que podemos denominar por artístico-atlética e inicialmente foi muito associada aos clubes nocturnos e ao strip-tease, sendo nos tempos actuais alvo de uma democratização acentuada: há um número crescente de mulheres ‘praticantes’ cujas condições sociais, profissionais e faixas etárias são diversas.

Porto, sexta-feira, 11 de Março, 19h40, um conjunto de pessoas enfileiram-se para assistirem ao espectáculo de Eisa Jocson, a coreógrafa e bailarina das Filipinas que encarna o papel de uma pole dancer, algo que de resto não é nada estranho para ela, sobretudo para quem venceu a primeira competição nesta disciplina em 2010, em Manila.

Os presentes dispõem-se numa espécie rectângulo envolvente (com ângulos achatados, deve dizer-se) ao espaço onde tudo acontece em pleno sub-palco do Teatro Rivoli: sentados no chão ou encostados às colunas de ferro tudo serve para apreciar com fervor voyeurista o espectáculo “Death of the Pole Dancer”. Pouco depois surge Eisa Jocson com aquele ‘bikini de couro preto’ e um par de sapatos de salto também pretos, com a peculiaridade de possuírem aquilo que aparentam ser uns cordões vermelhos na sola. Eisa é fisicamente cativante e possuidora de um mistério intraduzível num rosto bordado por uns cabelos longos e negros.

Carrega o artefacto num saco negro e retira as diversas peças, que logo em seguida monta com paciência asiática. Os que assistem parecem estar a frequentar uma acção de formação e peça por peça, componente por componente, Eisa vai armando o varão. Rodopia, contempla a assistência, avalia a robustez e a resistência do material e convida um dos circunstantes a segurar no varão, para melhor testar a fiabilidade do mesmo e se este está perpendicular ao solo: pergunta a elementos do público se deve aproximar o varão mais para a direita ou para a esquerda. Abana o varão para um lado e para o outro, num último exame sobre a fixação.

Ensaia em seguida movimentos do corpo repentinos sugerindo alguma violência física, para a frente e para trás ao nível do ombro que bate, de forma repetida, naquela barra vertical. Depois desta redundância cinética arrisca voltear sobre o varão, que se converte num eixo hirto de um corpo que circula em seu redor. Tudo isto não sem que antes a bailarina desenhe pequenas rotundas abstractas num movimento lento e andante em torno da vara e esfregue a mão de cima para baixo na barra e faça soar um som metálico. 

Por fim, experimenta uma posição em que fica de cabeça para baixo e consegue rodopiar no varão segurando-se com destreza no pés e socorrendo-se das mãos para girar. Mais adiante e em posição análoga permanecerá algum tempo imóvel até deslizar suavemente na barra até ao chão e desfalecerá.

Com este exercício, sob a forma de um curto espectáculo, Eisa Jocson convoca a atenção do espectador e interroga-o sobre a forma como este observa aquilo que pensa estar a avaliar. ‘O voyeurismo e a contenção, a vulnerabilidade, e a violência, a sexualidade e o poder…’ constituem múltiplos aspectos que estão na base de todo o trabalho versado pela coreógrafa e bailarina. Mesmo sem possuir esta estruturação cognitiva e sem este questionamento filosófico há pole dancers que não deixam de ser grandes artistas em bares, em estúdios ou… no Eros Porto! A grande diferença é que Eisa Jocson ousa a interrogação existencial.

Texto: João Fernando Arezes

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