créditos: Lauren Maganete

Se não foi a surpresa maior do Misty Fest no Porto, Dom La Nena namorou esse pódio. A brasileira radicada em Paris foi uma protagonista algo inesperada (ou talvez não): encheu a sala com o seu jeito gaiato, divertido e directo. Na verdade, cativou a sério todos aqueles que presenciaram o espectáculo da última quinta-feira, na Sala 2 da Casa da Música. A Sala Suggia não tardará a acolhê-la, estamos certos.

A abertura faz-se em idioma castelhano através de uma voz doce, muito agradável ao ouvido. O palco está engalanado com um efeito simples, mas esteticamente funcional: são quatro holofotes cinematográficos direccionados para a artista a criarem uma atmosfera especial. Dom La Nena utiliza os loops, o registo sonoro instrumental, tal como faz Andrew Bird, por exemplo. Aliás, o desígnio de os ver juntos no mesmo palco após a prestação musical da artista tornou-se um imperativo próximo de ser categórico.

O canto assemelha-se a um embalo hipnótico, arrebatador, mas simultaneamente doce e ternurento. “É a primeira vez que toco no Porto. Já toquei em Espinho, que é quase… Porto, mas só agora tive oportunidade de estar aqui.” Soa logo em seguida a melodia de “Ela”, que o mesmo é dizer que soa a bossa nova suave: “Ela não pode pensar, ela não pode lembrar, não quer mencionar, no que ficou para trás…”. As luzes de cor violeta entrecortadas por um vermelho intenso incidem sobre Dominique (Pinto).

“Buenos Aires” desfila no alinhamento logo a seguir. A cantautora aproveita para questionar o público acerca da existência de argentinos na sala, não há nativos do país das Pampas no espaço, mas há gente que já esteve na capital Argentina (Dom estudou lá vários anos com Christine Walevska, a sua mestra, uma americana conhecida como ‘deusa do violoncelo’, o instrumento de eleição da brasileira). O pequeno órgão e a voz aveludada encantam a assistência. A receita faz-se de algum despojamento em palco: quanto mais simples, melhor.

A sequência é portadora de “Vivo na Maré”, música que volta a demonstrar de forma vinculativa que a beleza pode ser moldada na simplicidade. O perfil versátil de Dom vai-se evidenciando a cada música que passa. Logo após este tema, a multi-instrumentista questiona: “Tem competição entre Porto e Lisboa?” e o público responde em tom irónico: “Nãaao!”. A música evocadora da capital lusitana é apesar de tudo bem acolhida pela assistência.

Muito interactiva com o público, em jeito agitado e a fazer uso de um humor solto, prossegue com “Sambinha” e desafia os circunstantes com um passatempo em que força a dança: o melhor a bailar recebe um cd da artista. E atira em jeito de brincadeira: “Quem perder, pode sempre comprar!”

Certo é que toda a gente está conquistada pela simpatia da violoncelista e cantora e a demonstração veemente disso é que uma parte significativa da sala dançou, correspondendo ao repto. Depois de duas músicas cantadas em francês, já passaram uns bons dez temas e ninguém deu por isso. “Juste une Chanson” é música feita do mesmo barro, Dom molda-a com aquela graciosidade com que preenche as composições de letras simples e tácteis.

Em seguida pegou na guitarra eléctrica e arriscou um clássico de Lupicínio Rodrigues, cantor e compositor gaúcho (1914-1974), tal como ela, que foi o campeão de música dedicada ao “ás de copas” e há quem diga que foi de igual modo o líder das canções que convocam a “dor de corno”. É quase um atentado que ninguém conheça na sala o autor brasileiro quando Dom La Nena o evoca. Mas é óbvio que toda a gente trauteia e reconhece “Felicidade”, mal a cantora chega ao refrão. E a versão que lhe sai dos lábios é de uma intensa beleza.

O embalo arrebatador prossegue o seu enleio mágico e contamina em adesão a assistência: a conquista no território da empatia protagonizada por Dom está totalmente consumada. E isso vê-se nos temas seguintes.

“Anjo Gabriel” começa com aquele arranhar suave e delicioso do arco a namorar o violoncelo e a música ganha lastro com o canto doce em consonância com a matriz melódica do tema. A prece da noite ao anjo da guarda ficou ali plasmada.

A presença em palco da artista de Porto Alegre está a chegar ao fim, houve ainda tempo para homenagear a incontornável cantora chilena Violeta Parra. A emblemática “Gracias a la vida”, celebrizada por Mercedes Sosa e por Joan Baez, sai-lhe com sentimento.

Torna-se óbvio que ninguém a deixará abandonar a sala sem um sonoro pedido de encore. É o que acontece, para satisfação de ambas as partes. Fica a promessa de um retorno a breve ‘trecho’. Até lá, vale a pena escutar os 4 álbuns de Dom La Nena, o último “Soyo” saiu em 2015.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments