“Dilemas Dietéticos de uma Matrioska…” – Ópera para nutricionistas do Amor

Deve começar por dizer-se que “Os Dilemas Dietéticos de Uma Matrioska do Meio” é daqueles espectáculos cuja expectativa é suscitada por uma curiosidade inicial, quanto mais não seja pelo título da obra, e que acaba a conquistar-nos de forma doseada e paulatina enquanto espectadores. Sem delongas, e sem perder a linearidade de raciocínio, a peça operática conseguiu preencher o depósito de expectativas de que éramos portadores na génese do ritual que nos levou até à sala de espectáculos do Teatro Municipal do Porto – Campo Alegre.

Vários factores concorrem para esse efeito. Desde logo uma história, um guião de acontecimentos que se encadeiam numa ficção pertinente e divertida: Mário João Alves soube, enquanto autor, colocar a tónica textual de forma a casar bem com a componente musical (ele que também é um homem do canto lírico, e que inclusivamente enquanto tenor já foi dirigido numa ópera em Omã por Plácido Domingo e, nesse mesmo trabalho, foi encenado por Franco Zeffirelli).

A composição de Nuno Côrte Real (NCR) enquadra-se de forma solta no espírito da obra. Rigorosa no brio sem ser hermética aos olhos do espectador, bem pelo contrário, convoca os instrumentistas a serem intervenientes, na essência a serem actores: Crispim Luz (clarinete), Susana Lima (violoncelo) e Brenda Vidal (piano) têm o seu espaço de actuação melódica, mas também participam na componente dramatúrgica, que aqui assume o carácter de uma ópera preenchida de comicidade, tal como a descreve NCR: “ (…) a ideia principal do libreto, e do convite do Quarteto Contratempus, foi de criar uma ópera cómica ou buffa”. Os intérpretes Teresa Nunes/”Ludmila” (soprano) e Job Tomé (barítono) “Raskolnikov/Ramelov” desdobram-se bem nos respectivos papéis, com um ‘perfil mais ou menos volumoso’, em conformidade com as cenas.

António Durães, o actor e encenador experiente a quem foi dado ‘o menu da peça’ consegue colocar e ‘dispor de todos os ingredientes em palco’ e servir-nos com substrato nutritivo um conteúdo pleno de sopas de ironia, com molhos de sátira e pitadas de humor.

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O efeito estético em palco é irrepreensível, bem alicerçado nos dispositivos multimédia que amplificam até ao plano pormenor algumas miniaturas, que mais parecem ter saído de uma casa de bonecas, e que estão expostas à boca de cena (colecção de matrioskas, mesa e cadeiras, pista de comboios, uma faca, a estante e o piano) e servem o propósito de um cenário projectado: simples e de belo efeito. A fonte da letra que é de igual modo exibida com um massivo vocabulário alimentar nas projecções, mostrou ser uma opção a preceito de Hugo Edgar Mesquita.

O guarda-roupa com a assinatura de Inês Mariana Moitas serve com impacto a intenção das referências do imaginário que possuímos em relação a esta temática. A participação de uma companhia histórica no âmbito do denominado teatro amador, como é o caso dos Plebeus Avintenses, é sempre de saudar.

Sem pretendermos, de forma assumida, debruçar-nos sobre a história desta ópera cómica, “Os Dilemas Dietéticos de Uma Matrioska do Meio”, que nos proporcionam uma jornada, uma longa viagem desde a aldeia do Mar Branco – onde Ludmila vivia com os seus -, até à migração familiar destas matrioskas para São Petersburgo, onde terão lugar as aventuras e desventuras da protagonista (com Raskolnikov, personagem da obra “Crime e Castigo”, de Dostoievsky, bem como com o Dr. Ramelov, nutricionista do Czar) após a instalação em casa da filantropa Filosofova, há desde a génese do espectáculo um fio desse novelo (talvez por isso haja alguém faça croché) a prender-nos até ao cair do pano. E depois disto até apetece… ir comer!

Uma derradeira nota, afinal de tudo falamos de música, para o Quarteto Contratempus, a quem se deve esta empreitada criativa, e que vai fazer apresentações da obra em itinerância por Portugal e também rumará ao Brasil (ver https://quartetocontratempus.wordpress.com/digressoes/), talvez fizesse sentido um regresso ao Porto para uma apresentação na Casa da Música, que por estes dias e até ao final de Dezembro vive um intenso ano cuja devoção musical é dedicada à Rússia.

Texto: João Arezes

Fotos – Quarteto Contratempus: © Mariana Figueroa

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