Demónios à solta no FITEI e em trânsito para o Teatro do Bairro

Demónios DR

O espaço de cena é amplo e entre os numerosos adereços contam-se uma cama, um sofá maior e outro mais pequeno, um computador portátil e uma mesa decorativa, um carrinho de bebidas, um frigorífico, um lavatório, um banco em formato de ampulheta e outro com design radial no assento, um roupeiro quase minimal e junto a este podem ver-se sapatos femininos e um secador. Convém não esquecer a existência de um telefone.

Tudo isto se enquadra num perímetro limitado pela existência de quatro paredes tão abstractas quanto transparentes aos olhos do espectador, que são encimadas por uma nave de luzes. Confortavelmente instalados, os assistentes estão preparados para um exercício de voyeurismo que dura umas duas horas, tempo suficiente para testemunhar um quotidiano que parece desagregar-se à velocidade de um galope. Prevalece o tom branco num palco singular que se converte numa espécie de arena em que 4 feras destemidas vão digladiar-se. Os espectadores formam um quadrado envolvente ao espaço onde a acção decorre e a(s) cena(s) se desenvolve(m). Tudo pensado para uma melhor aferição do observador não participante na peça (será mesmo?).

Feito o inventário descritivo, pode dizer-se que no capítulo narrativo, esta versão de “Demónios” de Lars Nóren, encenada por Nuno Cardoso para a companhia Ao Cabo Teatro, tem no vector elenco uma mais-valia de peso, a escolha dos actores adequados ao desafio que uma dramaturgia com a carga emocional e a tensão dramática que o sueco sempre deposita naquilo que escreve, inviabiliza desde logo uma prestação de actores inexperientes.

A princípio a confrontação é tributária do desgaste na relação entre o casal Katarina (Micaela Cardoso) e Frank (Pedro Frias). Um diálogo cru, onde a provocação é uma constante. Katarina ‘fascina-se pelo poder da gravidade’ e atira cinza para o chão, arremessa com violência assinalável um copo ao ponto de o desfazer no solo e faz com que a cama aparente estar em desalinho, tudo num episódio-génese para chamar a atenção do parceiro e a desafiar o perfeccionismo organizativo de Frank: um autêntico exercício de braço-de-ferro amoroso. Aos objectos existentes em cena junta-se a urna com as cinzas da mãe de Frank, acabada de falecer.

Frank e Katarina mostram-se impotentes na demanda de uma solução para o seu quotidiano conjugal. Para apimentar esta encruzilhada sentimental acresce a entrada em cena dos vizinhos Jenna (Joana carvalho) e Tomas (João Melo), em aparente estado de graça matrimonial a contrastar com o casal em litígio. Depressa a cosmética comportamental dos últimos acaba diluída pelo oportunismo de circunstância dos primeiros, que aproveitam para iniciar uma competição desenfreada de ciúmes, que se insinua de forma notória: Katarina com Tomas e Frank com Jenna.

A espiral de conflitualidade é latente, está à espreita e num ápice acaba a desaguar num vórtice de expressões desabridas. A ignomínia campeia. A tensão e a psicose imperam na atmosfera de cena. O strip-tease psicológico dos personagens apresenta-se ao espectador numa montra de expressões e gestos que, por paradoxo, tanto carregam fragilidades de vítima como violência de agressores. Um mergulho de 2 redunda num abismo de 4. A duplicidade da condição entre o real e o representado surge-nos aqui com uma fronteira ténue, quase como aquelas imagens televisivas que no ecrã nos aparecem com o decalque de um fantasma. Ao tabuleiro e peças de xadrez de Nóren, Nuno Cardoso comete a ousadia de um constante xeque-mate.

Quando Frank despeja as cinzas da mãe sobre a cabeça e o corpo de Katarina a acção atinge o limiar da tolerância, mesmo para o espectador. E quando se pensa que esta teia ardilosa que espelha a complexidade das relações humanas não permite fugas para lugar algum, o amor brota, assoma e emerge sob uma forma redentora que é intrínseca a essa luta por ele.

A peça continua em cena no Teatro do Bairro em Lisboa, desde a passada quinta-feira, e pode ser vista neste sábado e domingo (21h30).

Texto: João Fernando Arezes

Foto: Ao Cabo Teatro

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