Antecipando a prossecução de outros juízos, “Tordre”, o espectáculo apresentado no Teatro Constantino Nery, em Matosinhos, no âmbito do Festival DDD – Dias da Dança, uma peça da responsabilidade do coreógrafo francês Rachid Ouramdane, bem pode dizer-se que estivemos perante um dos trabalhos que mais se distinguiu no panorama da programação da iniciativa.

Sentados no anfiteatro do ‘Constantino Nery’, começamos por observar a entrada em cena de duas figuras vestidas de negro a contrastarem com o espaço branco e circular que as envolve, apenas em consonância de cor com duas barras de ferro horizontais que descem do tecto e culminam cada uma delas noutra transversa. A música de abertura começa por soar hollywoodesca. Os movimentos, os gestos e as poses afirmam-se diferenciados no início da récita.

Uma das bailarinas possui uma prótese articulada num dos braços, trata-se de Annie Hanauer, a intérprete norte-americana que trabalha desde 2008 com a Candoco Dance Company de Londres e colabora regularmente com Rachid Ouramdane. A acompanhá-la em palco apresenta-se a lituana Lora Juodkate, também ela intérprete e coreógrafa, com trabalho reconhecido em diversas paragens para além do país natal, como são os casos de França, Alemanha, Inglaterra, Israel, Rússia, Turquia e Ucrânia.

As duas estão livres e solitárias em pleno palco, os corpos não tardam em demonstrar todo o talento intrínseco de que são possuidoras. Com Annie no estrado, vemos o corpo a agilizar-se e contorcer-se de forma incrível, a desvantagem da deficiência braçal funciona como um tónico de superação física e anatómica: a emanar força e energia. Por seu turno, Lora descreve círculos de duração infinita em palco, qual dança interpretada pelos característicos dervixes turcos, marcada por um índice e variabilidade de gestos mais rica do que estes que se animam até ao transe. A isso, a lituana contrapõe o limiar de movimento que por certo a conduz até à vertigem e faz disso um culto que perdura desde a infância, como se a sua própria respiração e felicidade dependessem do acto emergente de rodopiar.

A luz produz sombreados, a dimensão temporal parece anular-se na relação que as varas transversas estabelecem: uma roda no sentido dos ponteiros do relógio e outra no sentido retrógrado. E a espaços harmonizam-se. Lora volteia num vórtice que a leva a uma sucessão de eixos sobre si mesma em movimentos simultâneos de rotação e translação, deixando um lastro abstracto de inscrição do corpo no espaço, a busca incessante pela afirmação do conceito espaço-corpo.

Annie percorre o palco com expressividade evidente ao som de uma versão do tema “Feelings”. E a hélice da ventoinha que gera alguma frescura no palco também roda quase até ao final. Tordre significa torcer, entortar em francês. Annie e Lora provam neste espectáculo que são positiva e intencionalmente mais de torcer do que de quebrar.

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