Findou em grande esta segunda edição do Festival DDD – Dias da Dança, com o magnífico “Celui qui Tombe”, um trabalho com Yoann Bourgeois ao leme. O coreógrafo e bailarino francês, que é também actor, malabarista e acrobata foi portador de um espectáculo cujo carimbo pode espelhar uma catalogação do tipo Novo Circo, mas que é transversal em termos das linguagens que operam na sua estruturação, uma vez que nos mostra quase todas as características de perfil de ofício atrás enunciadas. Aqui, mesmo que Bourgeois não se paute por ser apreciador do género, há teatro-dança quanto baste.

Num Coliseu do Porto praticamente cheio nos locais destinados ao público (excluindo a Galeria e a Geral para as quais não foram vendidos bilhetes) a adesão da audiência à proposta “Celui Qui Tombe” vingou desde o início do espectáculo. Com muitas crianças no meio dos adultos a apreciarem o desempenho no palco.

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Uma plataforma rectangular de madeira desce até a alguns metros do estrado. Os atletas, bailarinos e intérpretes sobem para a mesma e caminham a passo quando a plataforma começa a circular através de um sistema basculante (que também a faz subir e descer quando necessário). A princípio estão no centro e paulatinamente espalham-se para a extremidade daquele pedaço de madeira que rodopia e logo depois, com a aceleração de velocidade do dispositivo, começam a correr. Agrupam-se e activam a inclinação do corpo, permanecendo quase oblíquos em relação à linha horizontal da plataforma.

À medida que o tempo passa e o mecanismo volteia a uma velocidade cada vez mais intensa, os intérpretes parecem situar-se entre um praticante de patinagem artística sem patins e alguém que tenta caminhar num tapete rolante ao contrário do sentido do mesmo. Registe-se o permanente jogo de equilíbrio dos bailarinos-acrobatas num quadro de intensa beleza estética, com um dos pontos altos a suceder aquando da entrada da música imortalizada por Sinatra, “My Way”, e sobretudo na pose adoptada quando se abraçam.

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Por vezes o quadro assemelha-se à observação de um vinil imaginário de forma rectangular com gente em cima. Certo é que caem como tordos ao fim de algum tempo, pois esta espécie de rodeo rouba-lhes o equilíbrio.

Num momento subsequente vão gerar muita adrenalina no público: numa fase de balanço e contrabalanço da plataforma que agora está desprovida da base basculante e se encontra segura por cordas. Uma carga de tensão que se apropria do público por altura dos números de trapézio no circo, mas que aqui assume mais importância no que toca ao impacto que o pedaço de madeira pode ter numa hipotética falha de tempo na execução do movimento por parte do intérpretes e o consequente choque com a plataforma, até na ‘ilusão’ de que podem ser esmagados. E afinal, esmagados saem apenas os espectadores pelo peso de tão sublime prestação ‘do elenco’ de “Celui Qui Tombe”.

Em jeito de balanço, pode afirmar-se que a demanda pela afirmação do DDD no panorama nacional da dança contemporânea tem mais uma batalha vencida, a notoriedade internacional é um processo paulatinamente tangível.

Foram apresentados alguns espectáculos de uma exigência qualitativa de nível elevado, com “Nicht Schlafen” de Alain Platel/Les Ballets C de La B no topo dessa pirâmide, com um desempenho digno de cortar a respiração. “BiT”, de Maguy Marin, mais no início do festival, e o supracitado “Celui Qui Tombe”, de Yann Bourgeois, no fecho figuram de igual modo num patamar superior. “Tordre”, de Rachid Ouramdane, é também um desempenho artístico digno de muitos elogios. “A Perna Esquerda de Tchaikovski”, dirigido por Tiago Rodrigues, é outro dos exemplos que cabe neste tópico.

No domínio dos espectáculos que podemos considerar ‘interessantes’, tivemos oportunidade de desfrutar de “Muros”, de Né Barros; “Faits et Gestes”, de Noé Soulier; a prestação sónico-performativa de Jonathan Uliel Saldanha com “O Poço” e o “Projecto Espiões” de Filipa Francisco/Francisco Camacho/Sílvia leal e Glimpse – 5 Room Puzzle”, de Tânia Carvalho.

Há ainda gente promissora no capítulo criativo da dança contemporânea que se vai fazendo por cá a merecer a nossa atenção, são os casos de Ana Renata Polónia que no DDD mostrou em reposição “Yeborath”, que contou também na interpretação com Joana Lopes, bem como o espectáculo de Joana Von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristovão “Da Insaciabilidade no Caso ou ao Mesmo Tempo Um Milagre” e ainda da muito divertida incursão performativa de Catarina Feijão e Luara Learth Moreira Chubby Bunny.

No plano numérico importa realçar que a organização já tem dados estatísticos no que concerne a esta edição de 2017: dos 35 espectáculos que constavam no programa, 26 sessões estiveram completamente esgotadas (incluindo-se nesta contabilidade os dois espectáculos do novo parceiro do DDD, o Teatro do Bolhão, bem como o de encerramento do Coliseu, cujo número de espectadores se cifrou em 1297). Ao DDD Extra (workshops, masterclasses, exposições, encontros, conversas pós-espectáculos, sessões de cinema, etc) aderiram cerca de 2400 pessoas.

O Festival DDD acolheu 285 elementos de equipas artísticas, cerca de 40 programadores portugueses e de outras paragens geográficas e três jornalistas internacionais da especialidade.

A 3ª edição do Festival DDD – Dias da Dança decorrerá de 25 de Abril a 5 de Maio, no espaço que contempla o mesmo triunvirato urbano de Porto, Gaia e Matosinhos. A peça da coreógrafa marroquina Bouchra Ouizguen (que esteve no Rivoli com a peça “Há!”, em Janeiro deste ano) para a Carte Blanche, Companhia de Dança Contemporânea da Noruega. Olga Roriz também corresponderá ao convite para participar, para o efeito vamos poder ver a peça sucedânea a “Antes que Matem os Elefantes”.

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