Pode um espectáculo ter uma chancela interventiva no domínio daquilo que consideramos ser o resultado de uma estruturação artística enquanto visão do real? Esta é uma questão que se pode colocar em relação a “Muros”, o último trabalho da coreógrafa Né Barros, que o Festival DDD – Dias da Dança apresentou na abertura da iniciativa que decorre no Porto, Vila Nova de Gaia e Matosinhos até ao próximo dia 13 de Maio.

Na demanda de respostas para uma temática abrangente que contempla os exilados, refugiados e deslocados e a(s) respectiva(s) cartografia(s) de territórios implicada na mobilidade (e já agora mobilização) e fixação subentendidas, a coreógrafa portuense tem aprofundado estes domínios em diversos trabalhos onde se consagram as noções de fronteira, de expulsão e detenção de indivíduos face a uma actualidade gritante em que essa mesma problemática fervilha e não cessa de constituir assunto na ordem do dia. Em Voom (1999), No Fly Zone (2000), Estrangeiros (2012) e Landing (2013) estas questões, estas componentes de conteúdo disseminadas, já fundam matéria perscrutável para uma preocupação bem patente e ainda mais notória consagrada em “Muros”.

Esta derradeira peça coreográfica, por seu turno, acentua, sem a necessidade de uma explicitação panfletária, o aprofundamento desses aspectos. Gestos e movimentos dançantes que traduzem uma nova busca de exploração das anatomias e das identidades. Percebe-se que o interesse assumido pela coreógrafa em investigar a correspondência entre o corpo e as identidades, “muitas vezes fixadas na noção de raça e de marca territorial” são o GPS deste projecto.

créditos: Susana Neves

O corpo como elemento meta-fronteiras está assim no centro da abordagem de “Muros”, convertido em instrumento expressivo e impressivo da actividade exposta no linóleo. Fruto de uma pesquisa quase ‘floydiana’, os muros que intitulam a peça são um desígnio, uma matéria-prima a trabalhar em múltiplas vertentes e dimensões. A ideia de uma geografia dos corpos está aqui bem patente. E sim, foi isso que presenciamos no Teatro Nacional São João: o corpo solidário, o corpo sacrificado, o corpo ritualizado, o corpo em exaustão, face aos obstáculos e a capacidade transcendente do corpo em superar esses muros.

O dispositivo cénico é versátil e espelha os processos de análise, com a separação dos módulos, e de síntese com a agregação dos mesmos. Compartimentos estanques de vivências isoladas (campos de detenção?) ou peças corridas de um Lego físico feito barreira integral, “Muros” concretos e imaginários moldam o pensar e o pulsar. A música de Alexandre Soares, tocada ao vivo, cria as atmosferas sonoras e sensoriais com cambiantes rítmicas experimentais necessárias a um bom enquadramento e a voz de Ana Deus, também presente, contextualiza-nos a espaços. Os intérpretes bailarinos Joana Castro, Bruno Senune, Flávio Rodrigues e Gonçalo Cabral estão sem favor em muito bom plano. Elisabete Magalhães teima mesmo em impressionar(-nos). São ‘mur(r)os’ destes que nos trazem à realidade, por mais que digamos que são abstracções artísticas.

créditos: Susana Neves

Importa ainda dizer, em jeito de rodapé, que “Muros” de Né Barros, “Inquietações” de Joana Providência e “Antes que Matem os Elefantes” de Olga Roriz, mesmo a valerem por si só, separadamente, talvez possam constituir uma trilogia impensada e merecedora de um debate. Há afinidades e intersecções que bem o justificavam.

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