Dança entre Discursos e Um Mil Folhas, para ouvir e ‘comer’ no Café-Teatro do Campo Alegre

Eis uma proposta dentro do denominado quadro 2 em 1, embora a cada uma das ‘partes’, ou das peças vistas de forma isolada, corresponda uma temática diferenciada ainda que com um certo grau de complementaridade. Enquanto ‘Speeches’ nos remete para o discurso cada vez mais unilateral da ‘caixa mágica’: que nos propõe líderes que vamos elegendo, ou produtos que vamos comprando ou consumindo sem nos questionarmos, que torna imperativa a audição e visualização de uma retórica sem nexo, preenchida de redundâncias fonéticas e a enfermar de repetições sonoras às quais teimamos em obedecer (a crítica à autoridade está ali implícita através de curioso genuflexório…), “Escandalosos Desejos de Um Mil Folhas ” é uma peça em construção, estruturalmente evolutiva, com pedaços de criação cumulativa, sem final à vista, pelo menos para já.

Mariana Amorim, bailarina, coreógrafa e criativa que dirige ambas as peças, traduz os conceitos correspondentes a cada uma delas. Sobre ‘Speeches’: “São as ilusões que tantas vezes tentam reduzir a realidade.” E prossegue com um juízo alusivo à infância “Quando eu era pequena achava que os funcionários da RTP caminhavam pelo fio eléctrico até à caixa mágica, onde passavam o dia a animar o espectador.” E a artista acreditava que se desligasse a ficha do aparelho eles ficariam lá presos. Algo que lhe parecia de todo em todo uma maldade feita a quem era portador de felicidade aos outros, como era o caso dos apresentadores televisivos. Contudo, Mariana Amorim defende: “Hoje em dia a caixa está mais plana e transmite-me acima de tudo discursos, discursos que iludem, que não correspondem ao gesto. Talvez agora fosse mais justo desligar a ficha.”

“Escandalosos Desejos de Um Mil Folhas”, por seu turno, “É uma peça que será apresentada sempre em processo, sobre aquilo que imaginamos que somos, sobre aquilo que queremos que os outros achem que nós somos, sobre o que os outros vêem em nós, sobre o que é imaginado e sobre sombras…”. Na essência talvez resida aqui um certo e ligeiro namoro à “Alegoria da Caverna”, regressemos à análise de quem dirige para aquilatar: “Sobre as realidades que cada uma das nossas sombras possa carregar. Um mapa que indica o percurso do mítico Dorian Gray às diferentes nomenclaturas de um bolo.”

Pode a dança ser interventiva? Para saber qual a dimensão da resposta o melhor é ir ver as duas peças em estreia, no âmbito dos Palcos Instáveis da Companhia Instável, ao Café-Teatro do Campo Alegre, no Porto, hoje, sexta-feira, dia 4 de Março, às 21h30.

“Speeches”-Direcção, elementos cénicos e interpretação: Mariana Amorim. Colaboração com Tom Holman-Sheard. Sonoplastia, composição musical e edição de video: Tom Holman-Sheard. Captura de vídeo: Dinis Sottomayor. Escandalosos Desejos de Um Mil Folhas (peça em processo) -Direcção, coreografia, figurinos e elementos cénicos: Mariana Amorim. Sonoplastia e composição musical: Domingos Alves. Desenho de Luz: Ricardo Alves. Interpretação: Cláudia Eiras. Coaching: Silvia Pinto Coelho. Agradecimentos a André de Sousa, J. Monteiro e Rui Santos pela ajuda na edição de vídeo e som. Apoio Residência Companhia Instável/Palcos Instáveis Produção Esquiva Companhia de Dança Porto/2016.

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