Crónica: Vamos lá ao Sócrates

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Vou tentar ser curto e grosso. Foi sempre bastante complicado balizar a discussão sobre esta figura controversa. Até porque, no concreto, este caso não tem interesse nenhum. O interesse é a Justiça.

De forma resumida posso fazer duas análises principais sobre o nosso ex-primeiro-ministro, uma espécie de divisão entre a pessoal e profissional. Pessoal que enquanto pessoa que comporta um conjunto de valores com os quais me identifico ou não. Mas que também sem entrar em grandes filosofias sempre achei que a sua moralidade seria idêntica à de todos os seus parceiros quer de bancada quer de profissão – como por aí se diz: “tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta”

A outra era enquanto político, enquanto primeiro-ministro. Enquanto estratégia de governação de interesse nacional. O conhecido PIN, o investimento na tecnologia, ecologia, independentemente dos negócios que lhe serviam de base.

Mas o que interessa é o processo judicial que rola.

Esse que desde cedo espetacular é alvo de enormes divisões doutrinárias sobre a interpretação dos factos à aplicação dos preceitos legais. Espetacular porque a páginas tantas já ninguém quer saber do processo. As pessoas querem é saber da justiça material e da sua punição. Seja essa justiça o que for. E, assim, voltamos a uma ideia de idade média, à condenação em praça pública – aliás parece-me possível encontrar alguns paralelismos com a detenção de Strauss-Kahn, que pela simples acusação perdeu a presidência do FMI e a possibilidade de se candidatar a Presidente de França; na altura Miguel Sousa Tavares disse que a justiça americana tinha herdado o pior do Texas. Apartes à parte…

Não é recente o sentimento de impunidade e de incerteza do sistema judicial. Desde cedo nos frustramos com isto, desde cedo encaramos isto como uma necessidade. Aliás uns outros quantos paralelismos podem ser feitos: se tiveres um médico na família passas à frente dos outros, ou se fores filho de um professor corres o risco de ficar na melhor turma da escola. Esta é a nossa cultura.
Gosto de Portugal e dos portugueses e desta cultura também, do “se eu não gostar de mim quem gostará”.

Mas em relação à Justiça.

Ou percebemos que por um lado é um problema endémico da política e temos de pensar numa forma verdadeira de trazer à política a Política e à justiça a Justiça e que não podemos, nem devemos, ser prisioneiros dos nossos próprios defeitos nem que para isso se tenha que pensar num estado de transição onde a justiça seja assegurada. Ou então mantemo-nos resignados no estado em que estamos – a este propósito foi criado, esta semana, um Tribunal no Vaticano para julgar os crimes de pedofilia que tem assombrado o clero.

Pedro Selas

Membro e candidato LIVRE/Tempo de avançar

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