Crónica: E se?

eu ja sou candidata livre

Há alguns anos, ainda não imaginava eu que hoje estaria na direcção política de um partido, uma colega de trabalho garantia que nada se podia fazer a partir dos partidos políticos para mudar o país. Era preciso uma revolução nas ruas, dizia ela. E eu, não concordando com a revolução, ainda não, tinha tendência a concordar que, se me filiasse num dos partidos com os quais sentia alguma afinidade, pouco poderia fazer. Não conhecia nenhum dirigente, não tinha experiência prévia de activismo, não tinha estudado política. Só tinha uma ânsia dentro de mim que me dizia que: parada, não podia ficar.

E a ânsia foi crescendo com o passar dos meses, com o passar dos anos, com o “ir para além da troika”, com medida atrás de medida vergonhosa que este governo nos vendeu com todo o seu moralismo proto-fascista e inevitabilidade.

Até que um dia um amigo me diz: “Não queres ir ver isto e contar-me como foi?” Era a apresentação do projecto do LIVRE no Porto. Eu fui. Eu contei. Eu saí de lá a pensar, a reflectir, a dar por mim a sonhar. Sim, a sonhar! Afinal, algo de diferente ainda se podia fazer. Não existia apenas o inevitável, o mais do mesmo, o aquilo de sempre.

Mas promessas há muitas e a desconfiança com “o sistema” persistia. Até que, um pouco por acaso, participei na Assembleia Constituinte do LIVRE em Lisboa. E vi que, afinal, era mesmo possível! Afinal, as propostas que tinha ouvido no Porto não eram vãs promessas. Afinal, havia mesmo um conjunto grande de pessoas que passavam uma manhã inteira a votar e a debater ponto a ponto os estatutos de um novo partido, cheio de métodos e soluções nunca antes praticadas em Portugal, como uma direcção sem um líder ou eleições primárias para constituição de listas candidatas a eleições.

E eu, desconhecida e inexperiente, estava lá. A votar. O meu voto contava tanto como o dos demais. E foi dos das sensações mais recompensadoras que senti. A partir desse dia, estava com o LIVRE. Deitei mãos à obra. Ajudei à sua construção com o pouco que podia e sabia.

A obra é árdua e a aprendizagem constante.

Mas a introdução deste texto já vai longa porque tudo isto me traz às eleições primárias. A grande revolução no modo de fazer política em Portugal. Afinal, não é preciso ser-se amigo do dirigente, ou ser-se uma figura pública, ou ter alguma especial característica, para estar nas listas de um partido político às eleições legislativas (neste caso). Basta ser um cidadão ou cidadã que o partilhe dos mesmos ideais e dizer “presente”, “aqui estou para ajudar”. E, se convencer os eleitores, lá estará.

É tão simples, não é?

E no entanto, até 2014, 40 anos após o regresso da democracia a Portugal, ninguém o tinha feito. Em 2015, é a primeira vez que este processo está em curso para a elaboração das listas de candidatos a deputados à Assembleia da República. Pela primeira vez em Portugal, os deputados e deputadas eleitos não serão os mais populares ou amigos próximos do senhor Presidente ou Secretário Geral, mas sim aqueles e aquelas que os eleitores desse mesmo partido quiseram que sejam os seus representantes.

Mas há mais.

Na política portuguesa, como em muitos outros países, há um amplo segmento da população que não está proporcionalmente representado. Um segmento que ainda hoje é permanentemente discriminado em muitos âmbitos da sociedade e no âmbito político em particular. Refiro-me às mulheres.

Naquele dia de longa votação dos estatutos do LIVRE, um dos pontos de debate mais aceso, a elas dizia respeito. Deveríamos ficar-nos pelo que a lei exige ou ir mais longe e exigir uma representatividade de género equitativa? Fomos mais longe. Entendemos que são ainda necessárias medidas de discriminação positiva que tragam mais mulheres para a arena política. E é por isso que as listas que agora vão ser constituídas através das eleições primárias serão listas paritárias e em cremalheira, ou seja, em que mulheres e homens ocuparão posições intercaladas.

Dirão os críticos (e críticas) que o mérito deve ser o único factor a ter em conta. Mas quem conhece a desigualdade social também sabe que o mérito não é suficiente para alcançar a igualdade. É preciso dar a conhecer esse mérito, lutando contra um ponto de partida desigual. Por isso, tal como um Estado Social deve ajudar a que os cidadãos tenham igualdade de oportunidades venham de onde venham, um partido progressista deve ajudar à promoção da igualdade de género, promovendo se necessário a participação feminina, o género historicamente menos representado.

Parece simples, mas é inédito. Por isso é com muito orgulho que sou candidata a estas eleições primárias e me apresento perante a cidadania. Se entenderem que posso ajudar, que a minha voz se pode juntar a outras, serei candidata a deputada nas listas do LIVRE/Tempo de Avançar.

Diana Barbosa
Membro e Candidata LIVRE/Tempo de Avançar

 

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