Crónica: A coutada, o psiquiatra Ontológico e o anátema – parte I

 

[atualizado hoje, às 14h22]

Em Maio de 2015, duas dirigentes do BE desdobraram-se em declarações negativas sobre o Livre/Tempo de Avançar (TdA). Marisa Matias e Catarina Martins desenvolviam três ideias-chave: a fragmentação política à Esquerda cria dificuldades à própria Esquerda; a ideia de que o desenvolvimento do TdA resulta de problemas pessoais; a acusação de que o TdA é uma muleta do PS, por este procurar criar uma convergência para um governo à esquerda.

Estava certo de que estas afirmações estão profundamente erradas. E, por isso, procurei elementos que sustentassem esta convicção. Começo pelos números da Esquerda e do PS nas eleições legislativas desde 1995, para poder analisar algumas tendências. Geralmente, concentramos a nossa atenção nas percentagens. Essas análises são enganadoras, pois camuflam as deslocações do eleitorado e os fenómenos de recrutamento e polarização de apoios na sociedade portuguesa.

O que nos dizem os números?

Partidos

1995

1999

2002

2005

2009

2011

PS

2.583.755

2.385.922

2.068.584

2.588.312

2.077.238

1.566.347

BE

71.514

132.333

153.877

364.971

557.306

288.923

CDU

506.157

487.058

379.870

433.369

446.279

441.147

PCTP-MRPP

41.137

40.006

36.193

48.186

52.761

62.610

POUS

2.544

4.104

4.316

5.535

4.632

4.572

Toda Esquerda (excepto PS)

621.352

663.501

574.256

852.061

1.060.978

797.252

Esquerda + PS

3.205.107

3.049.423

2.642.840

3.440.373

3.138.216

2.363.599

Brancos/Nulos

113.093

108.194

107.774

169.052

175.980

228.017

Abstenção

3.001.411

3.449.066

3.429.492

3.196.763

3.838.276

4.039.063

Há 6 notas que ressaltam de imediato a partir destes números:

1. Entre a primeira maioria de Guterres e a derrota de Sócrates, o PS perdeu 1 milhão de votos. A maioria ‘empatada’ de 1999 já representa uma redução de 200.000 votos expressos no PS. E se, em 2005, bastam os mesmos votos de 1995 para uma maioria absoluta folgada, a seguir o PS perde apoios à razão de meio milhão por eleição.

2. A abstenção ganha neste período 1 milhão de cidadãos. Os períodos de refluxo deste movimento de abandono da participação nas eleições coincidem com as primeiras maiorias de Guterres (1995) e de Sócrates (2005). A abstenção não evoluirá apenas em função da votação no PS; falta aqui considerar o resto dos partidos. Mas a verdade é que o início de um ciclo governativo PS coincide com um recrutamento maior de abstencionistas e os segundos mandatos e o período de oposição coincidem com um aumento significativo deste alheamento.

3. Os partidos à esquerda do PS não parecem ter conseguido reduzir a abstenção de forma significativa ou duradoura. A recuperação lenta da CDU e o crescimento exponencial do BE em 2005 e em 2009, por exemplo, parecem resultar sobretudo da deslocação de eleitorado mobilizado e não de uma efectiva redução da abstenção. Nos segundos mandatos governativos do PS é visível a coincidência entre o aumento da abstenção e o crescimento dos partidos à Esquerda. Se forem tendências interligadas, faz-me perguntar: desilusão com a experiência de governo do PS?

4. Um fenómeno marcante é o crescimento contínuo dos votos brancos e nulos. Em 1995, mais de 113.000 eleitores foram às urnas expressamente para votar branco ou nulo. Até 2011, este valor duplica: 228.000 cidadãos deram-se ao trabalho de registar uma recusa em votar em qualquer dos partidos concorrentes. Este valor não deve ser negligenciado, é sinal de um profundo mal-estar do eleitorado, mas também da dificuldade dos partidos da Esquerda capitalizarem esse descontentamento. Em jeito de comparação, recorde-se que o resultado do BE nesse mesmo ano ficou pelos 288.000 votos, apenas 60.000 votos acima dos brancos/nulos.

5. A queda do PS não abre espaço para uma polarização eleitoral nos partidos à esquerda. O efeito de subida ou descida eleitoral na Esquerda parece ser global. Aliado à aparente dificuldade da Esquerda recuperar o eleitorado abstencionista, o crescimento destes partidos parece acontecer sempre ‘à boleia’ de um reforço global do campo. Ou seja, sempre que o PS perde eleições, os partidos à sua Esquerda sofrem erosão. Quando o PS inicia um ciclo governativo, a Esquerda reforça o seu peso eleitoral. Misteriosamente, estas forças nunca cooperam quando alcançam maiorias e apostam em estratégias de desgaste mútuo que, eventualmente, aceleram a mudança de ciclo político – e a redução do peso de ambos!

6. Há uma excepção a esta regra. Os segundos mandatos do PS trazem uma deslocação de votos em direcção aos partidos à sua esquerda. O efeito é completado pela desmobilização do eleitorado, que passa à abstenção, como mencionei. Mas o processo de redução ocorre, essencialmente, com atraso. A queda do PS arrasta, mais tarde ou mais cedo, toda a área da Esquerda. E, se é um facto que as perdas do PS são mais significativas que as de todos os partidos à sua Esquerda, também é verdade que essas perdas vão directamente para a abstenção e não para esses partidos.

Parece portanto que as estratégias que os partidos da Esquerda têm adoptado se mostraram infrutíferas. Nem os seus programas políticos e a sua postura face ao exercício do poder, nem a sua relação com o partido de centro-esquerda resultaram até ao presente num crescimento sustentável com condições de desafiar o status quo. Ao contrário da ideia de segmentação do eleitorado que os dirigentes da Esquerda frequentemente defendem (abordarei, na parte II, o argumento ontológico), os números insinuam uma interdependência maior entre PS e Esquerda, que seria ingénuo não ter em linha de conta na definição de uma estratégia política com vista à criação de uma alternativa política que rompa com o rotativismo do centrão.

Sinais preocupantes cercam o regime político, sem a emergência de uma resposta adequada por parte da Esquerda: crescimento assustador da abstenção (e não, a responsabilidade disso não é exclusiva de quem exerceu o poder!); duplicação do número de votos brancos/nulos; incapacidade de polarizar o descontentamento com a governação PS de forma sustentada. Não, a ‘coutada’ da Esquerda não se esgota no eleitorado que já está mobilizado. Vai ser preciso rasgar horizontes mais amplos.

Menos partidos, sector político mais forte?

Marisa Matias, dizia, por exemplo, que ‘não é preciso inventar espaços políticos novos, é uma questão de o refundar, porque está a precisar de ser refundado. Mas a soma das partes vai ser sempre inferior. Fragmento a fragmento, a esquerda vai ter sempre uma representação menor em termos nacionais.’ (Jornal I, 18 de maio de 2015).

A experiência do BE atesta exactamente o contrário. Em 1995 (a última vez que a UDP e o PSR se candidataram separados), o campo que o BE representa atingiu 71.514 votos. A Esquerda juntava apenas 621 mil votos, 500 mil dos quais nas mãos da CDU. Mas em 2009, a polarização de votos permitiu ultrapassar 1 milhão de votantes na Esquerda. E, mesmo com a hecatombe eleitoral de 2011, o campo registou perto de 800 mil votos – mais 180.000 do que o total atingido em 1995. O quadro é ainda mais relevante se considerarmos que no período de 1995-2011 a abstenção cresceu mais de 1 milhão de votos!

É certo que esta entrada do BE no panorama político nacional foi acompanhada de uma erosão do peso eleitoral da CDU. Entre 1995 e 2002, a CDU perdeu 125.000 votos, tendo recuperado apenas cerca de metade da perda até 2009. Mas não parece haver correlação directa entre as votações dos dois partidos. Mas a verdade é que o BE não se limitou a captar algum voto da CDU; o BE acrescentou votantes ao campo da Esquerda. Porque não pode o Livre/Tempo de Avançar ter o mesmo efeito?

A linha de argumentação de que se deve concentrar apoio nos partidos existentes, para fortalecer o sector, é antiga e foi usada por vários partidos no passado. Quando eu era membro do PCP, ouvi várias vezes este raciocínio em relação ao BE. Mas esta noção disfarça mal a ideia de que a Esquerda é um campo circunscrito e limitado, que pertence aos que chegaram primeiro, e que a entrada de novas formações serve para fazer a disputa de terreno aos instalados.

Nada disto poderia ser mais errado. O campo da Esquerda não só não ‘pertence’ aos partidos que já se formaram, como é campo aberto à representação de coisas diferentes. Uma formação política que não sustente uma visão para o país e – naturalmente! – para o exercício do poder, que não responda aos anseios de uma parte relevante da população; em suma, uma formação política que não represente algo, não terá viabilidade política. Ora, um novo partido no campo da Esquerda só é uma ameaça para os instalados se representar a mesma coisa do que os existentes. Como Catarina Martins tenta argumentar até à exaustão e, confessemos, de forma bastante mistificadora, existem diferenças entre os partidos. Qual é então o receio?

Colocado de outra forma: seria razoável exigir à UDP e ao PSR em 1999 integrar a CDU para, como diz Marisa Matias, reforçar as estruturas pré-existentes (se o partido já ocupa um espaço, já representa uma base da mesma luta, chega), em vez de ir fazer o BE? Provavelmente não. E isso decorre, tenho a certeza, do facto de concluirmos que não representamos exactamente a mesma coisa. Mas isso é coisa para desenvolver na parte II.

Bruno Carapinha
Candidato LIVRE/Tempo de Avançar

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments