Sábado, 18 de Março, 19h00 – Há uma fila imensa de gente no acesso ao Salão Árabe, em pleno Palácio da Bolsa, no Porto. A lotação para o espectáculo “Couture Essentielle” é limitada. O desfile de moda, ou de ‘anti-moda’, se assim o entendermos (embora a expressão seja forte), sob a batuta de Olivier Saillard, o director do Palais Galiera – Museu da Moda de Paris, está prestes a começar.

Pouco depois, o vasto contingente de espectadores é autorizado a aceder aos lugares. Um ligeiro compasso de espera e vemos entrar de rompante aquelas que outrora foram estrelas cintilantes de múltiplas passerelles: irrompem esguias e a exibir o porte elevado pelo espaço, trajando uma espécie de fato de ballet negro e sapatos de salto alto, que neste caso fazem com que estejam apoiadas num tacão agulha. A sumptuosidade da arena combina bem com o aparato elegante das intérpretes.

créditos: José Caldeira

Numa disposição em que operam três fileiras separadas de cadeiras para o público, a conceder a passagem dos modelos por um amplo espaço entre as mesmas, as protagonistas dispõem de um percurso oval que será vencido num circuito de pouco mais de 40 minutos.

Os tecidos de diferentes padrões e materiais, em formato quadrangular, vão-se colando à pele em interpretações criativas de modelos improvisados. Os dois pares de espelhos em cada uma das extremidades do salão são o suporte para o melhor arranjo e ao mesmo tempo sugerem a metáfora do reflexo da idade e do avanço inexorável do tempo com que se confrontam. Cada percurso retomado é uma etapa de vida.

créditos: José Caldeira

Na marcação inicial caminham em dueto solidário, mas depois marcham naquele galope gracioso e solitário. Auxiliam-se na concepção de cada um dos modelos, a segurar no tecido das outras ou a prender o cabelo da parceira para que a aparência das grifes capilares sejam mais consentâneas com a indumentária escolhida e assim progridem ao longo do salão amplo. Lá mais para o final, parece existir um anúncio de Primavera, com roupas mais floridas a serem ostentadas por Christine Bergstrom, Axelle Doué, Claudia Huidobro e Anne Rohart, as responsáveis por este acto performativo.

Por vezes fazem uma paragem e fitam-nos com uma expressão penetrante e logo prosseguem após aquela espécie ‘paso doble’ mais encurtado. Neste autêntico episódio de revisitação de carreira destas profissionais, há sem dúvida uma crítica implícita (ou várias) ao mundo da moda. A descartabilidade dos modelos que sucumbem à ditadura de uma ideia massificada de beleza que a indústria promove é uma delas. A desconstrução do mito de valor estético é perceptível aqui. A fábrica de marionetas também se descortina em “Couture Essentielle”.

créditos: José Caldeira

E afinal está tudo lá, para além das rugas, da anatomia mais anafada num caso ou noutro e de alguns cabelos brancos, o que afinal ainda (se) passeia é o charme, a elegância, a classe, a sabedoria e a experiência. De que vale tudo isso, se “Os cavalos também se abatem”?

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