Coliseu do Porto – Machine Head ‘mandam a conta à EDP’…

O domingo à noite não tem por hábito ser pródigo em celebrações litúrgicas, que são quase sempre mais matinais, mas uma ‘Missa do Metal’ celebrada a rigor pelos sacerdotes de serviço, os Machine Head, pode levar ao culto uma miríade de fiéis. E isso foi na essência o que aconteceu no Coliseu do Porto.

O negro prevalece nas vestes dos peregrinos musicais, desde as t-shirts às calças, alguns dos seguidores ostentam eyeliner, as longas cabeleiras são abundantes mas já não definem na totalidade o perfil dos aficionados do género heavy-metal, há gente de cabelo curto em grande número, dir-se-ia quase em maioria, e isto é o que se observa por altura da primeira das orações musicais da noite: “Imperium”, um dos clássicos da banda surge num palco cujas asas possuem uma espécie de biombos com símbolos dos Machine Head (o ciclorama também ostenta estas representações emblemáticas da banda), as luzes são potentes e o som é bem capaz de derrubar cristaleiras ao primeiro assalto.

Na linha da frente os três mosqueteiros do metal: na guitarra o líder e vocalista Robb Flynn, Phil Demmel na guitarra solo e Jared MacEachern no baixo e nos coros, na bateria altaneira que se sobrepõe aos outros está Dave McClain. Mal começa o concerto há mãos que se agitam para a frente e para trás e a enunciação colectiva de força a acompanhar através de um ritmado “ei, ei, ei…”, como se algo tivesse necessidade de ser empurrado. “Portugal, are you ready to sing these words, are you ready?”, solta Robb Flynn, como que a incendiar um ambiente que já de si está completamente em brasa.

Há cabelos que se agitam como tubos de ondas enroladas, cabeças a abanar de forma sincopada para a frente e para trás. A bateria imponente de Dave começa desde logo a meter respeito. A voz gutural e cavernosa de Robb impõe-se de igual modo no espaço. E há uma imensidão de corvos, perdão, de cornos a esvoaçar no território do Coliseu. “Beatiful Mourning” entra a galope e “Now We Die” prossegue à rédea solta. Os fiéis estão inteiramente devotos e em comunhão no culto às divindades, os salmos são algo heréticos, como o slogan de apoio pr(e)oferido pelo público em manifestação de apoio: “Machine Fuck’in Head! Machine Fuck’in Head!”.

As guitarras continuam em riste em “Bite the Bullet”, a cabeleira expressiva do baixista Jared é a que mais se agita naquela espiral capilar tão característica. No altar cimeiro, quer dizer, o sítio a partir do qual ‘o sacerdote Dave’ marca o ritual com uma batida certeira e impiedosa na tarola e nos pratos é também o horizonte visual para onde muitos dos olhares e dos ouvidos se dirigem.

“Locust” também não sai barata à audição. Dave continua a não deixar os créditos por mãos alheias e permanece supremo na bateria. As guitarras, que parecem terem sido forjadas em dia de plena trovoada através da queda de um raio, investem-se do estatuto de motosserras e parece não existir lenha que resista. “From This Day” prossegue na mesma toada. “Hi Mother fuckers!” lança Robb e a recepção à provocação é ruidosamente positiva. “Ten Ton Hammer” colabora na descarga eléctrica digna de uma barragem… sonora.

“This Is the End” brota enérgica, com um ritmo frenético e desenfreado nas guitarras e a bateria a caminhar em paralelo. Logo a seguir é Phil Demmel quem mostra todo virtuosismo instrumental na guitarra através de um solo magistral. Pouco depois, Robb surge em palco com duas guitarras, uma acústica e a outra eléctrica, a que usa em grande parte do espectáculo, e é nessa pose que encanta as hostes quando arrisca “Darkness Within”, música em que conta com o coro da tribo do metal, a luz branca permite ver os músicos de negro vestidos e de manga caviada a exibirem representativas tatuagens.

O recurso ao banho de strob luminoso afirmou-se com uma presença constante ao longo do concerto a acompanhar o ritmo desvairado da banda. Jared continua lá, tão discreto quanto eficaz no baixo. Robb e Phil ousam um frente-a-frente nas guitarras e lá em cima no púlpito Dave continua a ser alvo da devoção geral e mais ainda quando ‘saca’ um solo prodigioso na bateria ao mesmo tempo que está ser alvo de um banho de luz imaculada. “Buldozer” apanha a boleia da prestação do percussionista. Há muito que se insinuam e espalham pelo ar ‘fragrâncias marroquinas’, que agora se intensificam.

Os motores continuam a ressoar enquanto a tribo salta compassadamente, “Killers and Kings” e “Davidian” vão na mesma toada rítmica e em “Descend the Shades of Night” Robb é de novo portador das duas guitarras, num tema que se pode caracterizar por ‘mais calmo’. Sol de pouca dura, “Now I Lay Thee Down” convoca o mosh para o qual já se tinha definido o território anteriormente. “Raise your hands up to the sky!”, grita Robb e obtém uma imensidão de braços convertidos em caules de flores que são cornos a agitar-se para a frente e para trás.

“Aesthetics of Hate” e “Game Over” são tocadas num frémito e “Old” completa o sufoco. A prenunciar “Halo”, Robb Flynn solta em jeito de lamento “Foram 4 anos para regressar de novo a Portugal, é demasiado tempo…” os fãs concordam em uníssono e batem palmas ritmadas para um rodapé de ritual em grande: An Evening with Machine Head acaba com quatro bocas de fumo a lançarem ‘vapor’ para o ar e jactos de confettis sobre o público. É bem verdade, os norte-americanos de Oakland deixam tudo em palco e também saudades numa plateia que lhes reserva uma salva de palmas infindável.

Texto: João Fernando Arezes

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