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Sábado, 11 de Fevereiro, 22h00. Enquanto se espera (sem desesperar, longe disso) pelos GNR, as colunas vão debitando música de bandas como os Echo & The Bunnymen, Joy Division, Gene Loves Jezebel e as pessoas vão caindo nos lugares como peças de Tetris. Em boa verdade, 35 anos de carreira desculpam os 16 minutos de atraso da ignição musical, tempo de espera pelo motor de arranque do concerto: somos capazes de adivinhar que Rui Reininho queria certificar-se do desfecho vitorioso do Futebol Clube do Porto em Guimarães, antes de entrar em palco.

Como apreciação inicial, pode desde logo dizer-se, sem paliativos, que o Grupo Novo Rock está bem e recomenda-se. Imagens a preto e branco do trio constituído por Rui Reininho, Toli César Machado e Jorge Romão surgem no ecrã situado por cima do estrado, pouco depois entram todos na arena fervilhante de expectativas do Coliseu. “Bem-vindo ao Passado” é o momento a preceito com que se inicia o ritual de canonização melómana dos GNR nesta epifania celebrativa de três décadas e meia de estrada e de palcos.

O som parece estar bem calibrado, mas sofrerá acertos e afinações ao longo das duas horas de concerto. “Video Maria” comprova que o trio está em forma e a ele junta-se uma extensão de ‘matéria instrumental’ de se lhe tirar o chapéu (adereço usado pelos diferentes elementos do colectivo) Samuel Palitos na bateria, Tiago Maia na guitarra e Paulo Borges nos teclados.

Reininho está impecável na indumentária, com um blazer branco que lhe assenta bem, e a voz permanece naquele timbre característico, as luzes prevalecentes são nesta altura azuis e brancas. Jorge Romão, por seu turno, vai desfilando com estilo no baixo e Toli vai demonstrar toda a sua versatilidade, desde que deixou a bateria e desde há algum tempo ao leme dos teclados, da guitarra e do acordeão.

Depois de termos assistido a uma autêntica e positiva explosão do sistema de luzes que banha os músicos, Reininho agradece ao público presente: “Obrigado, Cidade Maravilhosa!”. E depois com aquele sentido de humor viperino lança a atoarda:” Esta música devia chamar-se “Alegadamente”, efectivamente podemos concordar. A audiência parece estar conquistada, a jogar em casa, os GNR não enjeitam a possibilidade de um brilharete.

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“Triste Titan”, do álbum Caixa Negra, de 2015, é o tema que se segue e leva com o epíteto que o líder lhe cola: “Música de Subúrbios” atira Reininho. O ciclorama está preenchido em saturação de um vermelho salmonado, com Samuel Palitos a percu(r)tir os pratos e a tarola a um ritmo bem cadenciado.

Na lista de espera há uma “Caixa Negra” que entra logo a seguir, com a passagem de Toli da guitarra para o piano e o enfático baixo de Romão também a sobressair. A voz de Reininho projecta-se no espaço e o som parece mais aprumado ainda.

Enquanto isso, “Cadeira Eléctrica” já está à espera no corredor… para entrar. E quando isso se verifica, os GNR aproveitam o ensejo para puxar pelo público, uma audiência que se revelou fiel ao chamamento: já há gente, muita gente a bater palmas e a dançar, nomeadamente uma brigada de fãs vestidos a rigor, ostentando t-shirts alusivas ao 35º aniversário da banda e que se agita com frenesim nas frisas.

E se as letras de Rui Reininho criam aquela dose de distanciamento da compreensão mais óbvia e imediata – o que só lhes confere maior elã, curiosidade e interesse-, “Ana Lee” é seguramente das mais paradigmáticas nesse domínio. A casar com isto são exibidas imagens de toada psicadélica, a guitarra de Tiago Maia irrompe sala adentro e as teclas de Paulo Borges insinuam-se no seio do diapasão colectivo.

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A primeira das convidadas, Rita Red Shoes, é particularmente saudada na respectiva entrada em palco. A voz plena de doçura, mas com volume, encaixa bem no perfil de interpretação de “Homens Temporariamente Sós”, a autora do mais recente álbum “Her” conseguiu dar uma roupagem inovadora a um dos mais emblemáticos temas da banda portuense.

Rita permaneceu no lugar e evitou que Reininho permanecesse circunstancialmente sozinho a fazer jus ao título da música precedente. Afinal sempre é melhor estar ‘só, mas bem acompanhado’, que o mesmo é dizer “Dançar Sós”, o tal tema cujo videoclipe foi gravado na sala esquecida e positivamente alternativa da Associação Católica do Porto (ali na Rua Passos Manuel junto ao Ateneu Comercial), pelo incontornável André Tentúgal.

Suar é fixe! Mas ali percebeu-se que escorreu mel pelos poros. Foi na essência um momento de sublimação artística, com uma estética irrepreensível, a dois.

E o espectáculo vai quase a meio e ninguém parece necessitar de suplemento energético do tipo red bull para ter “Asas”, mas a verdade é que o concerto vai ganhando envergadura e há gente a planar, talvez a justificar o tema versado. Um instante marcado também pela beleza das imagens exibidas na entrada da música e que acabam por acompanhar o tema. Há a reter mais uma prestação de Toli ao piano.

“Belle Vue” assume-se como uma espécie de crónica de viagem, embora não na Route 66, mas sempre por auto-estrada, Kerouac veio à lembrança. O tema icónico na discografia dos GNR, pertencente ao não menos simbólico Psicopátria, de 1986, um dos álbuns mais importantes da música portuguesa, pode contar com a prestação em palco de Ianina Khmelik, violinista na Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e no projecto As 3 Marias. A russa deu um ar da sua graça e pautou-se como uma convidada instrumental de peso.

A confirmar esta asserção, foi a moscovita empurrar o carrocel (que se vê no vídeo) com as muitas octanas provenientes do som do violino em “Valsa dos Detectives”, sim as teclas de Paulo Borges deram uma ajuda e a bateria de Samuel Palitos (dos eternos Sitiados) também foi a galope rítmico naquela cadência. E se embarcamos pelo mundo guiados pela mão, tal como canta Reininho, logo a seguir entramos nas “Sete Naves”, para uma outra espécie de viagem. Até o strob fortíssimo das luzes fez sentido. As “Impressões Digitais”, vá-se lá saber (o) porquê, saltaram “A Valsa dos Detectives”. A agitação já tomou conta da assistência e quando se atinge a hora das análises com “Sangue Oculto” a sala está quase toda aos saltos.

O palco está feito uma bola de fogo, com a representação do sangue plasmado nas luzes e no ecrã. Javier Andreu também lá está, o convidado que gravou com os GNR o tema saído em 1992, através do álbum Rock in Rio Douro.

Reininho lança mais uma boca cáustica e divertida: “Vai ficar em casa de Ti Casillas, isto se a Carbonero deixar!” Com o homem dos La Frontera em palco conquistou-se os que faltavam para a causa. Seguiram-se “Las Vagas” e “Macabro” e logo após entra Isabel Silvestre de traje rústico, muito felicitada pelo público. Estreia-se no estrado com a belíssima e comovente “Santa Combinha”, com a voz da cantora a ser acompanhada por imagens de fragas e paisagens que criam admiração telúrica.

A intérprete natural de Manhouce (S. Pedro do Sul) permaneceu para um dos mais ansiados momentos da noite, falamos de “Pronúncia do Norte”, obviamente. E sim, foi bonito de ver toda a gente em uníssono a cantar o tema há muito imortalizado. Passou-se em revista “Nova Gente” e em seguida “Morte ao Sol”.

Apesar do falecimento do Sol, ainda deu para subir às “Dunas” com toda a gente a cantar. “Quando o Telefone Pecca” seguiu o embalo e Javier Andreu regressou neste encore para auxiliar Rui Reininho a ir ao Inferno (não o de Dante, que ele também canta) de Roberto Carlos, a sala anuiu uma vez mais a fazer um acompanhamento em coro.

Para consagrar um regresso à adolescência a banda tocou “Sub-16” e com a colaboração do grupo infantil “Clavezinhas Sol” caiu o pano no palco ao sabor do canto de “Mais Vale Nunca”, a tal música que nos remete para Peter Pan ou para a figura do protagonista do filme “O Tambor”, Oskar, de seu nome, o tal menino que não cresce numa película baseada na obra homónima de Gunter Grass.

A julgar pelos comentários de algumas das mais de três mil almas que ‘pagaram multa’ (os bilhetes não eram módicos) para irem ver os GNR ao Coliseu, parece ter valido a pena. A banda provou a força motriz e mobilizadora que possui, num concerto cuidado e pautado por uma prestação muito profissional dos intervenientes. Venham, pelo menos mais… 35!

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