foto de João Tuna

Agora que já estamos com os dois pés em 2017, a panóplia de opções disponível em termos de programação do Teatro Nacional de São João (TNSJ), do Teatro Carlos Alberto e do Mosteiro de São Bento da Vitória já pode ficar sublinhada nas agendas da memória dos espectadores.

É uma cartilha programática vasta e diversificada que arranca com os Clã, num divertido musical infanto-juvenil, hoje, quinta-feira, 8 de Janeiro, um espectáculo que consolida a já longa ligação entre o TNSJ e a banda. A encenação está a cargo de Nuno Carinhas e o libreto é tributário da autoria de Regina Guimarães. Tal como assegura a nota informativa: “Fã não é, nesta criação, apenas um fanático de uma banda musical, mas também a abreviatura de fantasma, essa criatura que gosta de teatros, do avesso dos cenários, e aí passa os dias a pregar partidas.” Uma aposta para o público familiar, que permanecerá até ao final de Janeiro no Teatro Carlos Alberto, com a última apresentação calendarizada para o dia 29.

Uma das sensações do trimestre será protagonizada com “Antes que Matem os Elefantes”, uma visão de Olga Roriz sobre a questão da cidade-mártir de Alepo, na Síria. A guerra civil que assola aquele país e as dramáticas consequências que resultam disso estarão no palco do TNSJ. O prelúdio deste trabalho espelha essa face mais sangrenta do conflito: com um vídeo em que surgem imagens pontuadas com vozes de crianças sírias cuja projecção se processa através de um simbólico ecrã negro. Somos depois conduzidos e instalados no interior de um apartamento em ruínas. São apenas três dias de apresentações, prevê-se por isso uma grande afluência entre os dias 26 e 28 de Janeiro.

Tennessee Williams, o lendário dramaturgo do Mississipi (EUA), é um dos eleitos da programação do primeiro trimestre, e logo com um dos seus trabalhos mais prestigiados: “A Noite da Iguana”. A peça tem na encenação a chancela de Jorge Silva Melo e a interpretação está a cargo do elenco dos Artistas Unidos. Com este espectáculo a companhia e o encenador fecham um ciclo dedicado a Tennessee Williams que contemplou quatro peças, com três destas a serem co-produzidas pelo TNSJ. A acção decorre na atmosfera tórrida do ambiente tropical mexicano, num motel barato daquelas paragens, onde se cruzam diversas personagens imersas em contradições, portadoras de sarcasmo e ternura, a sonhar com paraísos perdidos e a tentar fazer a catarse e a expiação dos infernos construídos, sempre na demanda de um porto de abrigo. A peça estreou em 1961, na Broadway. Esta versão permanecerá em cena de 9 a 26 de Fevereiro.

Outro dos destaques do trimestre prende-se com o regresso da companhia Ao Cabo Teatro à dramaturgia russa, depois da incursão no universo de Tchekhov com a versão de “A Gaivota” e também de “As Três Irmãs”. Agora é Gorki o senhor que se segue enquanto autor de “Os Veraneantes”: um entroncado novelo de desejo e frustração, descrito como algo “que autopsia, então e agora, a nossa impotência perante o desenrolar da vida.” A peça tem estreia marcada para o dia 9 de Março no TNSJ e permanece em cena até ao dia 18 do mesmo mês.

No âmbito das propostas para o mesmo período, o Teatro Carlos Alberto (TeCA) acolhe “Confissões”, objecto doutrinal de marcada vertente teológica, esta obra de Santo Agostinho é vista, tal como o conjunto do seu trabalho, como determinante na forma e enquanto base para a criação de alguns modelos conceptuais que influenciaram a cultura ocidental até aos nossos dias. A peça é uma co-produção entre As Boas Raparigas… e o TNSJ. O espectáculo estará disponível ao público entre 17 e 26 de Março no TeCA. Numa perspectiva reflexiva, a peça vai auxiliar os espectadores a questionarem-se sobre múltiplas problemáticas enquanto seres humanos, independentemente dos credos que cada um professa ou não, por via da intervenção do ‘Padre da Igreja’, o grande protagonista deste espectáculo.

Romeo Castellucci é um nome incontornável no panorama teatro europeu, cuja obra ultrapassa em larga medida e reconhecimento as fronteiras do “Velho Continente”. O prestigiado encenador italiano regressa ao Porto, e ao TNSJ em particular, para ser homenageado. Já lá vão duas décadas desde a passagem de Castellucci pelo festival PoNTi. O TNSJ promove um conjunto de iniciativas a terem lugar no Mosteiro de São Bento da Vitória, tendo como destaque o espectáculo “Júlio César – Peças Solas”, naquela que é considerada uma intervenção dramática sobre William Shakespeare, e que integra o BoCa – Biennal of Contemporary Arts, sendo o conceito e a direcção da responsabilidade de Castellucci. Nos dias precedentes decorrerá um seminário com Alexandra Moreira da Silva cuja abordagem versará a estética de Castellucci – a realizar a 27 de Março, Dia Mundial do Teatro. A 28 decorrerá uma masterclass orientada pelo mestre italiano em que a temática incidirá sobre “o seu processo dramatúrgico e os seus questionamentos”.

“Os Últimos Dias da Humanidade” marcaram a temporada do TNSJ em 2016, levada à cena já no rodapé do ano transacto, a obra distinguiu-se pelas versões disponibilizadas em módulos somados ou em modelo compacto, contou com um elenco vasto de intérpretes e o sucesso alcançado pode replicar-se no Teatro Nacional D. Maria II, onde a peça poderá ser vista de 12 a 22 de Janeiro. Baseado na obra de Karl Krauss, o espectáculo conta com a encenação em parceria de Nuno Carinhas e Nuno M Cardoso. É desafio radical para o espectador, uma vez que o convoca para uma permanência prolongada na cadeira, no final ‘o saldo desse estoicismo’ de quem presencia é premiado pelo resultado de um trabalho em que o próprio autor considerava “como impossível de levar à cena”.

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