foto: João Tuna

Eles entregam o corpo e dão-se com alma ao longo de quase duas horas. É assim no mais recente espectáculo da Circolando, “Climas”, que está em cena no Teatro Nacional São João até ao próximo dia 18 de Dezembro. A verdade é que tem sido sempre assim, a companhia que sem necessidade de teses laudatórias quanto à qualidade da prestação serviços começou por mudar a paisagem artística da Invicta a partir de uma zona improvável da cidade (à data), Campanhã, e a ‘esp(e)alhar’ o seu labor artístico de carácter transdisciplinar, foi granjeando o respeito dos pares com a entrega generosa e suada (muito suada) que deposita nos trabalhos que produz.

“Climas” possui desde logo esse condimento apreciável de ter por génese o “Diário das Nuvens” de Goethe. A esta obra, onde o autor alemão aspira a “reintegrar o céu na paisagem urbana” e onde pugna pela defesa da ideia de que a observação atenta da natureza poderá desenvolver no homem uma outra forma de lucidez, junta-se a memória que André Braga, responsável pela direcção artística em colaboração com Cláudia Figueiredo, tem da cronologia que está na base da origem do espectáculo: “Tudo isto começou há dois anos em França, quando conhecemos um grupo de 12 jovens finlandeses, finalistas de um curso de teatro. Fomos para lá e a dada altura decidimos confrontar-nos com a ideia de como é que o Clima influencia o Homem?”. O ponto de partida levou os elementos das diferentes geografias a conclusões que de certa forma se tornaram em contributos cénico-dramatúrgicos, a matéria-prima essencial para o desenvolvimento do trabalho de palco.

foto: João Tuna
foto: João Tuna

“Até porque para eles, para os finlandeses, a relação com a luz, ainda é maior, pois vivem num território gigante, têm uma população mais reduzida, e estão mais sensíveis aos fenómenos climáticos.” Esta enzima artística foi o catalisador, o motor de arranque, para a criação de “Climas”, juntou-se a estes elementos uma boa pitada de Taussig, o antropólogo australiano que também auxiliou a que o desígnio da peça fosse posto em palco, sobretudo pelo facto de advogar que o clima é o elemento que mais influencia a arte e o comportamento humano. O elã filosófico que este magma compacto de ideias somadas despertou fez o resto da génese do trabalho. E depois, como acaba por perceber-se, existe sempre uma enorme margem para a improvisação em torno da ‘matéria dada’, que acabou por investir da própria condição de criadores todos os intérpretes.

Nesta curta conversa com o Global News, que decorre em plena esplanada do Café Java, ali bem perto do Teatro Nacional de São João, André Braga, confessa: “Este espectáculo é um pouco… não uma síntese, mas é o reflexo do que temos andado a fazer desde 2012, ano de “Areia”, possui mais texto do que é normal (dito através do microfone) nos nossos trabalhos. Mas o texto é mais uma camada, com a poesia e filosofia e um grande excerto do Raúl Brandão, depois temos a dança, o teatro, o vídeo e música.” E prossegue o raciocínio “Na sala de ensaios sentimo-nos livres de técnicas. E temos tudo, estamos a misturar tudo: som, movimento, dramaturgia… em camadas muito livres, onde às vezes a dança ganha mais protagonismo e outras vezes é o texto a destacar-se.”

Vimos “Climas” após esta breve conversa e tudo parece fazer sentido nesta matriz, há sol e chuva, brisas, ventos e trovoadas, e anatomias que ora se agitam em frenesim, ora caminham de forma suave entre o odor de uma fragrância telúrica que sempre carimbou a relação próxima entre a Circolando e a terra que pisa, que eles e elas pisam no palco. Há um humor honesto e saboroso feito de sátira e ‘canto lírico’, há uma ironia mordaz e hilariante como recurso à questão da morte das baleias pelos japoneses, projecções-vídeo preenchidas por agitação social e catástrofes ambientais, soldados e tribos em transe e algum rock and roll bem esgalhado.

Deste modo, os quatro capítulos que resultaram da estruturação do trabalho: pântano irrespirável, febre seca, coração da terra e buraco negro constituem os quadros cénicos e dramatúrgicos em que se emoldura o desfile dos intervenientes em palco: Constanza Givone; Daniela Cruz; Gil Mac; Margarida Gonçalves; Paulo Mota e Ricardo Machado.

foto: João Tuna
foto: João Tuna

Lançamos o repto a André Braga, para que dirigisse ele próprio um convite aos potenciais espectadores de “Climas” e a resposta não tardou: “Considero que é necessária uma certa predisposição para estar connosco ao longo de duas horas.” Dado este primeiro passo, pede-se a quem quiser ir ver o espectáculo uma outra condição imperativa, é necessário “ deixar-se levar, criar os seus próprios afectos, viajar para dentro de si e sobretudo não estar a raciocinar, para que o espectáculo seja mais emotivo e menos racional”. Está dada a receita, e é certo qualquer resultado de previsão meteorológica não vai afectar a fruição de “Climas”.

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