Pode uma música de registo monocórdico ser assumidamente bela? O concerto dos texanos Cigarettes After Sex (CAS) responde de forma positiva e cabal à validade desta interrogação. Durante uns 75 a 80 minutos de espectáculo, a banda liderada por Greg Gonzalez deu asas ao público para que este pudesse planar, tal como as aves, ‘ao sabor das correntes de ar quente’, algo que já é apanágio da casa. Podemos dizer que o ar foi comprimido, pois a lotação estava esgotada há mais de um mês.

A cerimónia iniciou com uma pontualidade inabitual: batiam as 10 horas da noite quando os de El Paso entraram em palco com neve a cair junto a umas casas no vídeo apresentado com um tema musical bem ao jeito dos clássicos cinematográficos a preto e branco do século XX. O som de “Sunsetz” sai sujo e o mesmo vai acontecer com “Starry Eyes” e “I’m a Firefighter”, as coisas só vão melhorar com a entrada de “John Wayne”, um pouco mais à frente. E ainda assim, o público aceita o processo de calibração sonora gradual sem regatear.

A postura em palco dos músicos em palco mantem-se no índice mínimo de mobilidade, bem ao jeito de crocodilos que não mordem: Greg sempre na frente a afagar a guitarra e a espalhar um canto positivamente melado, Phillip Tubbs é o paradigma de uma estátua erigida com as mãos coladas aos teclados (ou a mão, bem poderíamos dizer), Randall Miller comunga da inércia reinante e Jacob Tomsky é, por natureza instrumental, o mais afoito, e nesta densidade minimal harmónica até ele tem uma bateria sóbria e que aparenta ser constituída apenas por um prato, uma tarola e um bombo (fomos espreitar in loco no final). Desconhecemos se tudo isto é defeito, mas parece-nos mais que seja atitude.

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A realidade para os Cigarettes After Sex é mesmo a preto e branco, que o digam os fotojornalistas: os profissionais da imagem só puderam obter fotografias na observância fiel a esse preceito exigido pela banda. Os temas vão-se sucedendo numa sequencial beleza melódica apreciada por um público que sabia ao que vinha. Em “K” a audiência embarca também naquele canto sussurrado a secundar as palavras do vocalista: há relâmpagos nas imagens do vídeo e uma bruma de fumos apodera-se do palco. E também telemóveis, imensos, erguidos bem ao alto, para registar o momento.

Por opção seguimos o espectáculo a partir da mezzanine do Hard Club, lugar de boa visibilidade, conquanto que relativamente à profundidade sonora não se tenha revelado a melhor escolha. A verdade é que aquele ponto nos permite ver um outro lado do espectáculo: um duo de namorados que prostrado num dos sofás existentes troca galhardetes preenchidos de mimo e para o qual os CAS são na essência a melhor das bandas sonoras. E também a de um outro casal que não pára de dançar com as anatomias coladas uma à outra. Um pouco mais adiante, André Ferreira, que veio expressamente de Coimbra para ver os norte-americanos, atirava ao nosso lado uma piada a preceito sobre o lento rodopiar da parelha: “É um slow que já dura há mais de uma hora!” (risos).

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Keep On Loving You” surge a afinar pelo mesmo diapasão, com um rosto feminino de olhar vago no vídeo exibido no grande ecrã atrás dos músicos. A espaços há uns focos laterais bem luzentes cujo espectro é mais amarelado e que quebram aquele contraste entre a soturnidade e os feixes vincadamente brancos que se espalham pelo estrado.

O concerto vai correndo naquela mansidão sonora que impele ao ligeiro balanceamento do corpo. As coisas estão mesmo doces, quase se incorre numa crise diabética de índole romântica, sobretudo quando a voz melosa de Greg arrisca “Sweet”, de tal sorte que nem ousamos um olhar ‘cusco’ para o sofá ou para o casal do slow, dispensamos o voyeurismo.

É indiscutível que o trato musical dos Cigarettes After Sex é elegante, tem classe e “Opera House” espelha isso mesmo, a conformidade harmónica de todos os contributos instrumentais, por mais discretos que eles aparentem ser. “Affection” tem aquele prólogo de guitarra muito característica que Greg Gonzalez lhe confere e depois solta-se em toada etérea, com a bateria marcante e o baixo e os teclados a darem um ar da sua graça.

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O concerto caminha para o final, mas ainda há tempo para abordar “Each Time You Fall In Love”, com aquelas magníficas paisagens sonoras desencadeadas pelos teclados de Phillip Tubbs em progressão lenta para a voz do frontman e Jacob Tomsky na bateria e Randy Miller a apanharem boleia logo depois, e ainda as muito celebradas “Nothing’s Gonna Hurt You”, a tal que começa com o baixo forte e tem direito a um coro muito colectivo e o mesmo acontece com “Apocalypse”, que por sinal tem mesmo a ver com findar… e já agora também com (re)começar que é sinónimo de encore e este reserva-nos “Please Don’t Cry” e o rodapé em género de despedida ficou para “Young & Dumb”.

Quatorze temas depois, os Cigarettes After Sex abandonam o palco do Hard Club após uma prestação musical irrepreensível – que a parca qualidade do som inicial não abala de todo -, os texanos são um fenómeno ainda por explicar: uma banda que cativa muito público, estando num segmento que não é dos mais vendáveis, o da denominada música independente que combina a atmosfera mais ambiental com a dream pop e o slow core. A ver vamos se os tempos vindouros confirmam que eles estão para ficar ou se quem os apelida de serem um hype passageiro tem alguma razão. A terceira via pode muito bem ser uma metamorfose existencial.

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