Centro Cultural Vila Flor recebe “Fall”

Fall. créditos: José Caldeira
Fall. créditos: José Caldeira

Amanhã, sábado, às 22h00, o Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, abre portas para receber a queda vertiginosa de Victor Hugo Pontes. “Fall” é um título de uma palavra onde cabe o vocabulário ilimitado da vida.

Victor Hugo Pontes, coreógrafo vimaranense, cai desta vez em Guimarães, num palco que tão bem conhece, junto de um público que tanto o acarinha e promete levar a plateia consigo até ao chão. Este “Fall” retrata as várias faces de uma mesma palavra com todas as interpretações que ela carrega, desde a queda física, a mais óbvia, para, a partir daí, construir outras quedas mais profundas, carregadas de analogias e simbologias. Aqui, Victor Hugo Pontes trabalha quatro ideias fundamentais, com níveis de profundidade diferentes: quedar-se de amores, a queda bíblica, no outono, a aproximação de um fim de ciclo na natureza, e o movimento da queda física. Trata-se de momentos transversais ao percurso do homem, porque todos caímos de alguma forma a determinada altura da vida. A queda como algo intrínseco à própria existência.

A lei da gravidade impele-nos a cair, prende-nos ao chão, faz o corpo pesar sobre nós próprios. A vida também é assim. Dentro deste “cair” de Victor Hugo Pontes cabem várias quedas, com vários significados. Um cair sem fim, na mesma eternidade a prazo que é a vida. “Fall” é a vertigem da vida a dançar, a espernear, a debater-se no chão para sair dali. Um espetáculo que reflete a queda física, mas também a queda moral, emocional, espiritual. O olhar para cima de quem está caído como quem questiona, na vulnerabilidade da queda, tudo o que somos, a que lugar pertencemos e o que nos amarra à dureza do chão.

Fall ©José Caldeira_4

Quem já não experimentou a vertigem de cair de amores, de cair na tentação, de cair no erro, de simplesmente cair porque alguém nos tirou o tapete. Todas estas vertigens cabem em “Fall” e cabe também o barulho ensurdecedor do corpo estilhaçado no chão de cada vez que se cumpre um desses tropeções. Cair magoa, por vezes deixa marcas, e nunca é fácil o esforço de nos erguermos do chão porque, além da dor, conhecemos a inevitabilidade de que vamos cair outra vez. Também na morte caímos, a derradeira queda que nos deixa prostrados no chão para sempre. Victor Hugo Pontes mostra-nos a queda livre da vida em “Fall”, as perguntas que nos atormentam quando estamos pregados ao chão. Como fomos ali parar e como vamos dali sair. E as respostas, assim como o trabalho árduo de nos reerguermos, não são fáceis nem bonitas. São cruas como a realidade.

Neste espetáculo, sete bailarinos caem vezes sem conta. Ganham lanço para a queda, ganham lanço para um salto de fé que inevitavelmente os irá esmagar no chão. Cair sempre para cair melhor. Ou não. E em cada queda uma réstia de esperança porque num dos lados deste vocábulo que é “Fall” cabe também o outono, estação em que tudo morre para se regenerar na estação seguinte. É a redenção na queda.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments