Casa da Música (ou)viu um Benjamin que já é uma “Lenda Viva”…

"Os pés de Benjamin estão descalços a revelar uma devota comunhão com o chão que o músico pisa."

Vemos uma figura que veste um longo casaco em tom de azul. Alto, esfíngico, elegante… o homem portador destes atributos é nada mais, nada menos do que Benjamin Clementine a entrar em palco. E isto é só uma descrição sumária para o início daquela que seria uma prestação musical cuja adjectivação permanecerá parca em palavras para descrever o que se sentiu na Casa da Música, na quarta-feira passada. Com os ecos dos concertos no Theatro Circo de Braga e no Teatro Aveirense a serem os arautos da boa nova (boa trova, neste caso), percebeu-se pela conversas dos circunstantes que o índice das expectativas estava ao rubro, mas em boa verdade não foram tão suficientemente elevadas para compensar tudo aquilo que se passou em palco.

Voltemos a uma narrativa de natureza musical, como se a contássemos conjugada no tempo presente, para nos parecer ainda mais próxima. Depois deste relato, estaremos certamente aptos a perceber a razão pela qual o Mercury Prize de 2015 foi tão bem atribuído ao álbum de estreia do britânico “At Least for Now” (Benjamin fez questão de o dedicar às vítimas dos atentados de Paris).

Os pés de Benjamin estão descalços a revelar uma devota comunhão com o chão que o músico pisa. Há algo de espiritual nesta relação entre o músico e o estrado sobre o qual toca. Vai ser sempre assim ao longo de quase uma hora e meia. Três focos de luz convergem sobre ele e o piano e desenham um círculo iluminado esbatido no solo. Do outro lado está um baterista que se há-de revelar como alguém de infinitos recursos ao longo de todo o concerto: o talentoso Alexis Bossard (francês e músico dos Java e colaborador, entre outros, do projecto Selim e dos americanos De La Soul).

Ao primeiro toque nas teclas solta-se o verbo e as palavras povoam o espaço. Percebe-se logo aí que Benjamin enche a sala (no sentido literal também lotou os 1100 lugares da Sala Guilhermina Suggia). Em “Condolence” temos erupções cutâneas. E, sim, aí percebemos que Benjamin pode ter algum ‘ADN musical’ de Nina Simone, Edith Piaf, Anthony Hegarty (and The Johnsons), Tom Waits, os ‘Nicks’ Cave e Drake, num corpo que se fosse feminino bem poderia ser o de uma Grace Jones.

“Nemesis” reserva-nos a voz quente e refinada dos grandes da soul, com ‘o domador da bateria’ a mostrar-se, de igual modo, como um virtuoso instrumentista. Benjamin transpira poesia pelos poros e respira inspiração. O inusitado silêncio reverencial do público entre as músicas ou nas paragens súbitas que o cantor empreende é o espelho da admiração que suscita na audiência. A espaços, qual acrobata num trapézio, toca apenas com uma mão, como que a dizer que tudo lhe parece fácil, sobretudo para ele que foi um sem-abrigo e tocador ‘de música a Metro’ em Paris, para onde fugiu aos dezanove anos na demanda de um sonho que não encontrara na sua Londres natal.

A delicadeza tonal combina com a suavidade aveludada com que amacia as teclas na versão de “Riverman” de Nick Drake, um dos ícones que inspira este filho de ganeses. Há uma boa dose de intimidade que nos confronta. Benjamin é electrizante e perene de carisma. Há uma espécie de campo magnético que faz com que não haja momentos mortos e que concentra o nosso olhar no palco, sem que este se disperse do alvo por um instante.

Ouve-se uma marca identitária verbal da Invicta, oriunda da plateia: “Dá-lhe Benjamin!”, como que a selar o agrado com que as hostes estão a receber o desempenho do artista. Face à curiosidade de Benjamin em querer saber o que havia sido dito, alguém traduz por aproximação num enviesado “Go for it!”.

“Adios” corre desenfreado como um cavalo sem rédeas, com as teclas em perfeito saltimbanco, a voz densa e grave corresponde no timbre e acaba em tom lírico, revelador das nuances tonais, com um jogo de agudos, numa extensão vocal plena de versatilidade. “People and I” prima pela nobreza do canto e pela sonoridade vibrante do piano, com a bateria sempre a revelar-se em grande nível e em perfeita empatia rítmica com o piano.

Em “Cornerstone” viajamos num balanço ondulado feito jangada de teclas, com a matéria poética a soltar as amarras e a envolver-nos na catarse solitária do autor. E se em “I Won’t Complain” nos concede uma introspecção que a espaços se resigna com as agruras da vida, mas que todavia busca a superação de tempos difíceis numa esperança vindoura, na panfletária “Beady Buses”, em pleno encore, denuncia sem receios They been fighting for pennies and call it a democracy… Idiosincrasy…”.

E se Benjamin Clementine deixa a assistência incrédula e em delírio por tudo o quanto tinha acabado de assistir, Alexis Bossard não o fez por menos, o baterista deixa como assinatura da sua participação no concerto um solo magistral na bateria, uma autêntica cavalgada tonitruante que ficou na memória.

Ao fim de hora e meia de concerto, depois de múltiplos “Thank you, obrigado!” dirigidos à plateia, a humildade e o talento do rapaz que saiu de casa dos pais tão precocemente para seguir um sonho fizeram com que ganhasse mais um milhar de fiéis que se vão multiplicar de forma bíblica… ou não tivessem eles assistido ao que se pode designar para além do sentido literal, por um enorme ‘espiritual negro’.

Texto: João Arezes

Foto: RRE – Direitos reservados

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