Capicua – Uma Sacerdotisa Rap no Ritual da Noite

Com o estatuto de jograis melódicos desta vigésima quarta edição das “Noites Ritual”, os Grandfather’s House tiveram uma prestação dentro das expectativas e expeliram um som forte, aquela voz e a guitarra vão dar que falar, muito potencial “Drink of You”, Lost Women When the Night is Young” e “Life Deserves” são a prova cabal disso mesmo.

PZ, por seu turno, quis assumir que o maior ritual da noite seria converter a iniciativa em ‘festa do pijama’. Há ali muito de uma certa forma de estar, e não só a musical, ‘à Porto’: descontraída e despretensiosa. Um ecrã cuja imagem projectada parece a saída de um megafone esbatido ou a porta para a quinta dimensão vai fazer as delícias geométricas e os delírios visuais a acompanhar as músicas. A base musical é quase se poderia dizer simplex (tirando as conotações socráticas à matéria). “Neura”, “Dinheiro” (a tal música que fez cair natas do céu, perdão, notas do céu), “Ser” e “Bacalhau” são exemplos de músicas bem esgalhadas, que convocam o público à dança e ao canto e a uma agitação repetida da cabeça mas simbolizam também o lado que o músico portuense e a banda necessitam de trabalhar. O embalo e o potencial estão ali, mas não podem ficar ali, de outro modo o projecto PZ será de valor conjuntural.

Com os Oliveira Trio a noite ganhou lastro musical, somos transportados para uma atmosfera dos anos 60 e 70. Para um daqueles bailes impregnados de frenesim: um órgão que assume a liderança rítmica, uma bateria com personalidade e um baixo endiabrado conquistaram de imediato o público. Muito do instrumental dos “Stray Cats” e algum charme de “Pulp Fiction” pairaram por ali, num dos momentos mais conseguidos da noite. Aquele final ao ritmo arrebatado da música do “Justiceiro” até nos fez ter saudades de David Hasselhoff. Ficaram na mira e no ouvido.

À hora escrupulosamente marcada Capicua surge em palco vestida de negro, com uma camisola que ostenta um rectângulo de cor cinzenta e branca no frontal. M7, a acompanhante imprescindível no instrumento voz, está um pouco mais ao lado esquerdo do público. Os músicos e o ilustrador/designer estão na retaguarda do estrado.

Solta-se a música com “Sereia Louca” e esta não veio de Copenhaga, como a famosa. Há mãos que se agitam por entre o público num ritual de concordância e adesão, o som sai forte, o ecrã exibe o desenho digital de Vítor a ilustrar o sonoro em tons cinzentos, vermelhos e negros. Palavras de ordem tiradas às rédeas da boca povoam o espaço em tom libertário: “Eu calo as palavas, poupo o dicionário, é que pró meu silêncio ainda não há dicionário…”, canta Capicua, com intensidade, na canção Alfazema, logo depois de uma introdução em registo de rap à capela. As letras são escorreitas e fluídas, emerge das mesmas um carácter marcadamente interventivo, são perceptíveis ao conhecimento médio do público e isso estimula a compreensão geral.

foto: Hugo Sousa
foto: Hugo Sousa

O espectáculo prossegue e um pouco mais adiante “MC”, a tal cujo significado ambivalente é mestre-de-cerimónias e “Maria Capaz”, torna-se audível e contamina a audiência. Sérgio Godinho, Zeca Afonso e José Mário Branco pressentem-se por ali, ‘miscenizados’, plasmados naquela toada de rap e hip-hop, algo híbridos na forma de condensação musical que a líder da banda adopta para as canções. Em “Fado Tropical” a adesão criada com o público e as assumidas intervenções de carácter político a que não se dispensa. “Medusa” denuncia a violência doméstica sobre as mulheres, “que desde Janeiro deste ano já fez 22 vítimas”, assinala a rapper. Se não pudessem agitar os braços, Capicua e de M7 seriam mudas como italianos na mesma situação. E as duas estão sempre sintonizadas na voz e ora se aproximam fisicamente em união, ora se separam no momento certo.

Casa no Campo”, na qual também se evoca Elis Regina, dá azo a uma das melhores ilustrações de Vítor, D-One e Virtus estão desde o início sempre em cima da jogada ‘a samplar’, dar tom, e a preencherem as músicas com o instrumental hip-hop. “Liberdade”, que une a grande poetisa Sophia (de Mello Breyner Andresen) a Sérgio Godinho, é declamada a trote. “Lupa” entra naquela tónica da lírica camoniana do “Amor é fogo…”, a verdade é que os ânimos já estão positivamente incendiados com a energia electrizante que transbordou para a assistência, o concerto chega ao fim, ultrapassada que foi a formalidade do encore, cumprindo (a) o preceito de ter sido uma noite de ritual de adesão do público à arte (interventiva, pois claro!) de quem esteve em palco.

Texto: João Arezes
Fotos: Hugo Sousa

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