Era um dos espectáculos com maior depósito de expectativas deste “DDD”. E em abono da verdade, aquilo que Jonathan Uliel Saldanha apresentou no palco do Grande Auditório do Teatro Rivoli, não defraudou o público. Longe disso.

A audiência ficou localizada nas varandas técnicas, em camadas de três patamares de visualização distintas. Os espectadores foram sensibilizados à entrada para se despojarem de objectos que podiam criar mossa a quem estava no palco, a uns metros muito significativos mais abaixo. Uma máscara simples para protecção de gases é entregue a todos.

A escuridão inicial impera durante uns largos minutos e ouvem-se ruídos de moedas a cair em profundidade, uma ilusão floydiana de sonoridades do tipo “Money”, sucedida por uma toada de música mais industrial, com outros objectos de som mais ou menos metálico em queda livre. A escolha da ‘banda sonora’ revelou-se a preceito no auxílio à dinâmica de cena.

“Máquina vertical de exumação acústica. Uma caixa negra que opera um ensaio sobre gravidade, gesto e opacidade, onde os vestígios de presenças, linguagem e acções sustentam uma paisagem intangível.” Eis a definição inicial de um conceito levado ao palco por Jonathan e respectivo colectivo de colaboradores artísticos. E há coerência na transposição das ideias para o palco.

Há uma correria desenfreada de vultos negros, pontuada aqui e ali por luzes de um intenso branco proveniente de lanternas que alguns dos seres trazem agarradas ao corpo. Dir-se-ia que estamos numa atmosfera digna dessas entidades subterrâneas: os ‘trogloditas’, do filme Delicatessen. Ou talvez apenas ratos humanos que rodeiam um esgoto circular. Uma metáfora à condição humana, certamente. A gravidade, a Lei da Atracção, está tudo lá. Mas “O Poço” de Jonathan Uliel Saldanha é, num certo sentido, e apesar da dose de exagero da asserção, como os filósofos pré-socráticos: vale mais pelo que deixa por dizer do que pelo que diz. Neste caso, vale mais pela sugestão do que por aquilo mostra. E isso é bastante mais positivo do que aquilo que aparenta ser à partida.

Aquilo que os espectadores trazem do espectáculo para o seu domínio pessoal é uma atitude reflexiva, individual, mas que pode ser partilhada e debatida. Estamos na dimensão pós-apocalipse ou estaremos na actualidade? Este lixo que não vem da terra, mas que cai do céu atraído pelo solo, qual íman de despojos, que realidade configura? São algumas das questões a que quem assistiu pode debater.

Faltou um verdadeiro “Poço da Morte”, embora o esboço da rapariga montada na mota a girar em torno ‘daquele conjunto de cardinais com limite circular’ (e no decurso do que foi dito acima) já nos tivesse dado a ideia.

Ficou-nos na retina o quadro dos fumos: como se atraem e como se expandem. Ficou-nos no ouvido a paleta musical. Valeu a pena? Vale sempre a pena quando a queda ‘a… o Poço’ não é pequena. E Jonathan já tem presente. O futuro é para prosseguir…

Observação: alguém da equipa deveria ter vindo ao palco agradecer no final. Estivemos presentes na segunda récita e isso não sucedeu.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments