Buika ou ‘o elogio da mestiçagem… musical’ no Coliseu do Porto

Noite de sexta-feira, perante um Coliseu do Porto muito composto e face a um dia de autêntico dilúvio na cidade Invicta, com o factor adicional de estar ser disputado um clássico futebolístico, como é o caso de um Benfica-Porto, à mesma hora do espectáculo, não se pode dizer que a colheita de público para o concerto de Buika tenha sido escassa, longe disso.

Com um vestido branco a contrastar com a cor da pele da cantora espanhola, eis que a esfíngica figura de Buika surge em palco pouco depois das 21h30 anunciadas. Uns brincos brilhantes e um lenço colorido adornam-lhe o cabelo esculpido de forma artística. As tatuagens abundantes nos braços e nos ombros estão à vista. Um sorriso permanente rasgado nos lábios deixa (ante)ver ‘uns dentes da sorte’. Um jogo de luzes púrpura combinado com tons de azul e branco testemunham-lhe a entrada no estrado.

“Vivir Sin Miedo” é o primeiro dos temas a desfilar. A canção homónima do álbum de 2015 que a artista vem apresentar a Portugal cativa desde logo os circunstantes: a voz magnífica, em timbre grave, insinua-se no espaço com uma projecção intensa.

Enquanto o baixo e a bateria sobressaem, e neste caso é o prenúncio do original “Lost in Translation”, um dos múltiplos temas cantados em inglês, Buika escuta em pose a harmonia instrumental e logo a seguir arrisca aquele imenso canto. As cores das luzes tornam-se mais vibrantes: amarelo, verde, laranja e a espaços também o branco vai matizando o palco. Um solo de guitarra rasga o compasso e a voz da diva negra ganha volume logo em seguida. Os ritmos do espectáculo balanceiam no reggae na parte inicial, mas aqui e ali irão surgir laivos de jazz, world music, rhythm and blues, ska, soul, pop, afro-beat e o sempre celebrado flamenco, mais adiante há também quem julgue ter estado, ainda que de passagem, num concerto de Santana.

A riqueza híbrida que resulta de uma mescla de sonoridades volta a ganhar dimensão em “Hijos de La luna”, tema onde a cantora solta o lenço colorido que lhe prende o cabelo entrançado e aproveita para anunciar em portunhol: “Eu não sei falar português, pero no importa!”. Os espectros de Bob Marley e Tosh vagueiam por ali… etéreos. Buika adopta, num misto de reverência espiritual e uma pose interventiva, uma atitude de quem canta com sentimento, que às vezes em metamorfose roça a raiva do desamor, numa antítese do que sempre defende.

Em “Death is not the End” adivinha-se uma toada experimental, a música está em suspenso, a deixar suspense na voz e os timbres permanecem versáteis a erguerem-se para lá do trombone, da caixa, da bateria, do baixo, da guitarra e dos teclados que compõem o ramalhete. E de repente, uma nuance sem anúncio prévio: mudança de ritmo súbito no padrão musical. Buika continua vibrante e logo anuncia a música seguinte, deixando-a sob a forma de prece: “Vamos cantar para que Deus nos traga muito dinheiro!” e sorri abertamente. “Mucho Dinero” prossegue assim em toada alegre, com alguns dos músicos a entoarem a segunda voz.

Os músicos e Buika entram logo a seguir em toada rapsódica e fazem alinhar: “Amor de Mis Amores”, “Beat It”, “Candela” e “La Falsa Moneda”. E ainda de forma particular com o ‘mago da guitarra’ Ahmed, entoaram-se temas como “Sister”, “Un Mundo Raro” e “No Habra Nadie en el Mundo”. Sempre bem-disposta, a alternar o castelhano e o português no proverbial agradecimento de final das músicas, com “Gracias” umas vezes e “Obrigado” noutras, a filha de pais fugidos à ditadura na Guiné Equatorial  e nascida em Palma de Maiorca há muito conquistou o público presente. Em “Volverás”, do registo “Niña de Fuego” (2008), a voz é cálida e uma vez mais afirma o afecto que as hostes nutrem pela maiorquina.

“Kind of Man” e “Siboney” acentuam ainda mais a comunhão entre a cantora e o público. Por vezes dança no ritmo africano das origens que lhe correm no sangue, intercalando com suaves demonstrações de um expressivo bailado… o ‘flamenco adoptivo’ e canta com os olhos fechados e corpo ligeiramente inclinado, com o indicador estendido a apontar para o solo e a gingar-se para esquerda e para a direita.

“Podemos celebrar a alegria da vida porque estamos loucos”, sentencia a determinada altura do espectáculo. E di-lo “sem medo”, com a coragem do lema que adoptou para a vida. Em “Si Volveré” dá-se o êxtase musical do concerto. Aquele ritmo consegue enlear os espectadores e contagiá-los. Gesticula, dança e às vezes namora um certo jeito de rapper na forma como debita as composições. Ocorreu-nos por momentos a imagem de uma Ursula Rucker interventiva, tal é o fervor interpretativo.  Abandona com manifesta vontade de regressar “Sí tengo ganas de volver…” e regressa para gáudio dos presentes. “The Key (Misery)” fica na memória auditiva deste rodapé.

Uma hora e três quartos depois a musa espanhola e os instrumentistas deixam o palco… e deixam saudades num público que os saúda com aplausos de pé. Até a um próximo regresso, aceitamos o conselho de Buika e teremos de “Vivir Sin Miedo”.

Texto: João Fernando Arezes

Foto: Rui Pinheiro

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