Bon Iver, Angel Olsen, Sleaford Mods e ‘King Gizzard…’ entre os melhores do(a) ‘Primavera’

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O sol foi um dos protagonistas da segunda página da obra NOS Primavera Sound 2017. Deve começar por dizer-se também que as preocupações de dimensão ecológica se fazem sentir a todos os níveis no recinto. Os cuidados com a vertente da higiene acentuaram-se e as novas casas de banho parecem limpas e funcionais. É claro que ao fim de uma noite de utilização nada é perfeito (nem mesmo um presidente de câmara no Brasil), a pressão de milhares de utilizadores assim o dita, por mais manutenção que possa existir dos receptáculos higiénicos.

No capítulo musical, o dia começou com os melhores auspícios melódicos, com os First Breath After Coma a concederem um magnífico concerto. A banda de Leiria provou em palco que vai dar que falar nos próximos tempos e sobretudo vai dar a conhecer o seu projecto musical a quem ele ainda não chegou.

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O ‘Primavera’ é em definitivo um festival de gente feliz (com lágrimas, mas apenas quando se emociona num concerto), que se passeia e fixa entre diversos palcos e múltiplas propostas musicais. Com gente que relaxa em esplendor na relva ou testa o sabor do lúpulo entre uma bucha nas barraquinhas e o estender de uma toalha quadriculada para melhor ver um espectáculo a partir da ladeira.

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Regressemos à música para descrevermos um pouco o concerto que os australianos Pond deram no palco NOS. A banda de Perth, liderada pelo irreverente Nicholas Allbrook, espalhou charme com o seu rock psicadélico: “Paint Me Silver” foi talvez o melhor exemplo disso mesmo. “Sweep Me Off My Feet” sublinhou também essa sedução. Duas guitarras, um baixo, teclados e bateria deliciaram os presentes com um espectáculo balsâmico, em plena tarde heliocêntrica. “The Weather” foi assim convocado como um tema a preceito. Que mais se poderia pedir? Talvez uns Whitney. Mas isso foi só por volta das 19h00 (antes um bocadinho).

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Já em pleno palco Super Bock, a banda de Chicago apresentou-se firme apesar de os elementos terem assumido que não dormiram na noite precedente: vieram directamente de um concerto em Bolonha, Itália, para o NOS Primavera Sound.

E os Whitney mostraram um indie rock refrescante e talentoso. Julen Ehrlich, o vocalista incumbido da bateria, uma combinação algo inusitada nestes meios, foi o porta-voz dos de Chicago. Ele que há uns tempos confessou que a marijuana era uma ferramenta de criação musical. A asserção não é filosófica, mas parece ser praticável, sobretudo se atentarmos no repertório da banda.

E se houve sol para dar e vender, em “Polly” assistimos também à presença do arco-íris: um beijo entre elementos da banda. A homofobia, a existir, ficou para lá da cerca do festival. O diapasão dos Whitney fica marcado por algumas singularidades: a voz aguda de Julen, a guitarra de Max Kakacec e o trompete de Will Miller. É claro que Marc Brown, Print Chouteau, Charles Glanders e Josiah Marshall não estão lá só para enfeitar o bolo musical.

“You’ve Got A Woman” e “Golden Days” ajudaram à celebração, sempre tonificada pelo sol que aos poucos muito naturalmente ia definhando. Os americanos deram boa conta de si e prometeram voltar.

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O fluxo de peregrinos melómanos dirigiu-se já muito perto das 20h00 para o palco NOS, onde Angel Olsen se apresentaria pela primeira vez na ‘Invicta’. Se o que se tinha visto de Norte a Sul, por parte da cantora e compositora natural do Missouri, o mesmo é dizer do ‘Vila Flor’ (em Guimarães) à ZDB (em Lisboa) já eram referências de primeira água musical, no NOS Primavera Sound os créditos não seriam deixados por mãos alheias. E não foram.” High & Wild” soou como o despertador para o que viria a seguir – se é que alguém não despertou depois daquele vestido verde que a cantora norte-americana ostentou em palco. A líbido também tirou bilhete.

“Shut Up and Kiss Me” sai logo de seguida à boa maneira do dito popular: bem rasgadinha. Aquele aparente olhar circunspecto, mas por paradoxo, também simultaneamente imerso em alguma ternura de Olsen, transfigura-se na comunicação com o público. Ela atira: “Estão a fazer-me corar!” Com aquela roupinha, proferir o verbo corar parece algo mesmo nada antiquado, mesmo no apogeu das máquinas de lavar.

A estética musical aprimorada prossegue com “Acrobat” (álbum “Half Way Home”, 2012) e ouvimos outras coisas de igual calibre harmonioso como “Sister” (do mais recente “My Woman”, 2016). O desenlace dá-se com o primoroso “Windows”. Alguns terão ficado com a ideia de um espectáculo algo em queda, mas a tipologia de alinhamento é enganadora nesse capítulo: a beleza tem picos entre a contenção e a catarse. Foi isso que sucedeu e por isso todos vamos querer tê-la de volta.

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Aproveitamos, no entretanto, para dar uma escapadela ao “Palco.” Os Sleaford Mods, o tal projecto de Nottingham, curiosa esta coincidência para a terra natal da dupla ou não fossem por estas landas que um tal de Robin Hood, o lendário fora-da-lei que roubava aos ricos para dar aos pobres, uma liturgia social que Jason Williamson e Andrew Fern por certo perfilham, isto a julgar pelo discurso positivamente debitado em palco.

E algo nada despiciendo, os Sleaford Mods são o projecto musical a quem Steve Ignorant, célebre membro dos incontornáveis Crass, uma das bandas punk britânicas de referência do final dos anos 70 até meados dos anos 80, mais loas teceu na edição de 2016 do KISMIF, as conferências promovidas no Porto sobre o universo do movimento punk. Foi com agrado que os ouvimos, naquela toada interventiva em pose algum incomum: Jason é um performer que declama ininterruptamente, às vezes o corpo contorce-se, põe a mão atrás das costas e execra o sistema e as injustiças, por seu turno Andrew toca dois instrumentos: o play do computador e uma ‘cervejola’ aos tragos. Os roadies da banda devem ser dos que mais trabalham. A verdade é que os Sleaford Mods são gente admirável.

Um dos pontos altos, tal como era esperado, foi o espectáculo de Bon Iver. É verdade que o americano apresentou um alinhamento tendo por base um início a fazer concessões a um período mais ‘electronizante’, se quisermos fazer neologia.

Certo é que Justin Vernon apostou nessa vertente de “22, A Million” e só depois foi ao baú buscar o material mais conhecido. Quando fizeram desfilar a matéria criativa menos recente a adesão do público cresceu. E sim, após temas como “29 #Stratford APTS”, os americanos lá arriscaram algumas das mais bonitas, como foram os casos de “Halocene”, “Perth”, “Calgary” ou “Towers”.

O concerto dos Bon Iver traduz como prova cabal o sentimento de que um espectáculo pode ser portador de doses de intimismo cerimonioso como uma mais-valia de fruição por parte do público e fazer desmoronar o argumento de que tudo o que é mais decibélico se converte naquilo que é mais apropriado para o ranking qualitativo de um festival em pleno palco. O culminar da epifania, com o celebrativo “Skinny Love”, com Justin a cantar acompanhado da guitarra acústica e com a toada percutida das duas baterias, vai ficar na memória.

Uma espreitadela rápida aos Swans no “Palco.” revelou no mínimo que ainda há gente a segurar nas cristaleiras desde a última presença da banda de Michael Gira. Imaginamos uma banca da “Casa Sonotone” à saída. Qualidade patenteada a custo elevados junto da EDP. O “Lago dos Patos” do Parque da Cidade assumiu uma nova e pesada versão do “Lago dos Cisnes”.

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Entramos em definitivo em etapa de observação pingue-pongue, tão característica do conceito de festivais-puzzle, adicionamos a peça Teenage Fan Club, no Palco Super Bock. E a escolha revelou-se acertada: os britânicos estiveram acertados.

Os King Gizzards & The Lizard Wizard estavam a dar um autêntico show de hard rock frenético, com distorção de guitarras à mistura, mas que revelaram uma das melhores actuações do dia. Recuamos até aos bons velhos tempos de um Jethro Tull, só para falar de uma de múltiplas analogias de possíveis influências que vão do rock progressivo ao heavy metal, passando pelo jazz, reggae, soul e folk. O público estava a delirar quando abandonamos o espaço para apreciar uns muito interessantes Cymbals Eat Guitars, no palco Pitchfork. Uma bela promessa a fazer lembrar uns memoráveis Car Seat Headrest, no final do ano passado.

Hamilton Leithauser, o líder dos extintos The Walkmen e a sua banda também mereceram a nossa atenção durante quase toda a sua actuação no último palco referido, continua em forma. E nós esperamos também estar em forma para continuar a reportar o festival na sua fase mais canicular que se adivinha.

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