Black Mountain e Killimanjaro – Se a fé move montanhas, no Hard Club ‘a devoção’ foi a dobrar…

Do imenso viveiro indie rock de Barcelos vieram os Killimanjaro e do Canadá, no decurso da digressão que estão a fazer pelo ‘Velho Continente’ (mas que também inclui os EUA e o país natal lá mais para Maio e Junho), os Black Mountain. Uma soma musical com psicadelismo a brotar de duas parcelas com denominações montanhosas cuja fé do número significativo de peregrinos musicais que marcaram presença saiu fortalecida. Uma epifania a preceito para melómanos curiosos.

Foi com uma sala muito composta que os Kilimanjaro abriram o pano. E o livro, bem pode dizer-se. O trio mostrou um som compacto e artilhado através de uma guitarra, um baixo e bateria. Os riffs andaram à solta, espalhados pelo espaço, com decibéis ao rubro numa prestação que incluiu solos desenfreados na guitarra e um som metálico nos pratos, sempre ilustrados visualmente por luzes cadentes e fortes a transbordar de cores, sobretudo o violeta, vermelho e o branco e a espaços o azul.

Após um período de tempo muito significativo para uma primeira parte, cerca de uma hora, os autores de “Hook” (2014 – Lovers and Lollypops), e mesmo apesar do som ter saído sujo num ou noutro período, os barcelenses deixam o palco com uma presença bem (a)firmada e a comprovarem que vão continuar a dar cartas no panorama musical, quiçá além-fronteiras, o que não estranharia pela qualidade patenteada no som que produzem.

Os Black Mountain só entram em campo, melhor, em palco, escassos minutos antes das 23h00. Com “Mothers of the Sun”, que encabeça o mais recente álbum “IV”, dá-se uma falsa partida para o concerto dos canadianos: o microfone destinado à vocalista Amber Webber teima em não funcionar na ‘hora h’, algo que torna perceptível o seu nervosismo perante a plateia. Todavia o público não dá sinais de desagrado e o problema acaba por ser resolvido um pouco mais adiante com a amável cedência do ‘micro’ do companheiro de banda, ‘o domador’ do baixo Colin Cowan.

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Finalmente a ignição musical ganha centelha e a voz de Amber irrompe pela sala, a guitarra de Stephen McBean repete-se, tal como aquela sonoridade das programações que parece o sinal contínuo de um batimento cardíaco: a vocalista, qual sacerdotisa do rock, vestida de negro, abraça o microfone e partilha o canto com Stephen, como em grande parte das vezes. Os teclados soam com muita potência e criam uma atmosfera insinuante, quase espectral. A bateria surge em forte cadência em intervalos rítmicos. E a guitarra de Stephen torna-se marcante ao longo do tema: há um solo fabuloso que ecoa entrecortado pelas vozes do próprio e de Amber. A música é saudada positivamente pelo músico.

A segunda a arrancar é “Florian Saucer Attack”, também do derradeiro álbum “IV”, que vai ser lançado em Abril, e sai a todo gás, com aquela batida certeira inicial na bateria de Joshua Wells, e os teclados de Jeremy Schmidt, cuja figura faz lembrar outro músico, neste caso, o famoso Beck (Hansen), a transcenderem-se. O público vai-se familiarizando paulatinamente com a prestação musical dos canadianos. Há um solo fabuloso de Stephen que ecoa entrecortado pela voz do próprio e a de Amber.

O espectáculo vai ganhando lastro. “Stormy High”, do segundo álbum “In the Future” (2008), expande-se em ritmo rock legado Led Zeppelin: claro, com a guitarra de Stephen eriçada, o baixo compassado de Colin e a bateria em malhação precisa de Joshua. A atmosfera criada pela banda de Vancouver remete-nos para uma linhagem musical de uns Wooden Shjips, banda que deixou bons créditos na mesma sala do Hard Club há dois anos, precisamente em Março de 2014, ou de uns infelizmente extintos Rose Windows.

Enquanto espirais alongadas se cruzam nas projecções de luzes na parede do palco surge “Defector”, do último trabalho, e Stephen, sempre ele, enfático na guitarra e na voz a fazer pela vida.

E com “Tyrants”, igualmente de “In the Future”, somos invadidos pela energia transbordante da bateria e da guitarra em prolongamento rítmico, mas de igual modo pela ambiência enleante, quase hipnótica, dos teclados de Jeremy que também deixam marca sonora identitária ao jeito de um Ray Manzarek dos Doors ou de um Rick Wright dos Pink Floyd, não por acaso duas das bandas pelas quais reconhecem ter sofrido influências.

“You Can Dream”, igualmente de “IV”, é talvez das que mais laivos de electrónica possuem. As vozes de Amber e Stephen combinam bem e vão-se impondo mano-a-mano. Os feixes de luz, ora amarelados fixos ora brancos banham o palco, a bateria releva-se através de um tom quase marcial e prossegue até ao final e é bem acolhida pela assistência. “Line Them All Up” (também do mais recente “IV”) é o tema que se segue e o registo é mais calmo. Até que surge uma das mais saudadas, “Old Fangs”, o tal tema em que no vídeo oficial alguns elementos da banda viajam num icónico Mustang castanho e que é sem dúvida um dos melhores temas dos Black Mountain.

Uma paleta de cores luminosas com cambiantes de púrpura e vermelho contrastam com o amarelo no acolhimento a “Crucify Me” (“IV”), Amber Webber, longos cabelos e vestida de negro, canta com sentimento: as duas mãos agarradas ao microfone e quando a voz está dispensada entreolha os companheiros da banda. Colin, no baixo, parece estar sempre numa outra dimensão, algo zen. Joshua sua as estopinhas com as batidas contínuas e Jeremy parece surfar nos teclados. E Stephen não pára de soltar notas na guitarra. A simbiose entre o instrumental e as vozes é quase perfeito.

Em “Wucan” (In the Future), uma das mais conhecidas, são muitas as cabeças no público que abanam para esquerda e para a direita em sinal de harmonia com o ritmo que a banda do ‘país do plátano’ faz irradiar na sala.

Em “Cemetery Breeding” (“IV”) Amber pega pela primeira vez na guitarra, o vermelho das luzes dissemina-se pelos músicos e harmonia musical prossegue em boa cadência agora que se adivinha o final. E é com “Space to Bakersfield”(“IV”) que a prestação dos canadianos culmina com o colectivo todo em coesão melódica e sim, com um solo frenético do homem de cabelos mais compridos: Stephen McBean. Palmas a ecoarem na sala sinónimo de um encore que havia de ser portador de “No Hits”, do álbum homónimo da banda “Black Mountain”, de 2005.

Estamos convictos de que numa próxima vinda a Portugal o(s) palcos serão do tamanho de um Paredes de Coura ou de um Primavera Sound.

Texto: João Arezes

Fotos: DR

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