Uma cadeia de intérpretes desta peça coreográfica começa por ensaiar pequenos movimentos a ladear as 7 rampas metálicas (lá mais para o final talvez possamos teorizar sobre a similitude de igual número de Pecados Capitais) que constituem o bloco cenográfico de “BiT”. A cadência musical é marcada pelo ritmo techno que, com maior ou menor intensidade no volume, funciona como uma batuta para os movimentos mais vagarosos ou apressados dos bailarinos. Quase podíamos utilizar a preceito e em registo colectivo, bem como em assumida neologia o verbo ‘zorbar’.

“BiT”, essa unidade de base que mede a informação na liturgia computacional, marca o compasso e assume-se aqui num plano de biorritmo geral. Nessa métrica temporal inscrevem-se pulsões e frenesim, há momentos de catarse e há momentos de deslize nas superfícies metálicas que são suaves, quase tântricos, e outros a espelhar instantes orgíacos preenchidos de cor ou em subtil soturnidade. Desce-se à Roma Antiga naquele instante preenchido por um tecido vermelho de corpos seminus entrelaçados.

Espelham-se circunstâncias do quotidiano em sociedade, em que os indivíduos unidos por esse elo gregário da dimensão social permanecem juntos até que de repente algo despoleta uma brusca separação. A dança ritualiza os mitos, talvez urbanos, conquanto que haja muito de ancestral no que é exposto. Os intérpretes descrevem círculos majestosos em redor dos artefactos metálicos e encenam jogos de juventude em delírio quando se revezam no lançamento de cada um deles ao ar.

Um perfume de heresia solta-se com ironia naquela cena bem plasmada dos frades em diatribes sexuais, num suposto recuo temporal que o devir traz à memória na conjugação de um tempo passado sempre no presente.

Se no domínio do rigor conceptual o consenso é notoriamente tangível aos destinatários, os espectadores, a dimensão sensorial do que é tocante neste espectáculo torna-se assaz subjectiva. No entanto, é incontornável que Maguy Marin nos convoca a uma introspecção e a um subsequente questionamento posicional enquanto indivíduos que são parte de um todo social com este “BiT”, 49º espectáculo em que deixa a sua chancela pessoal em mais de 4 décadas de carreira profissional.

DR

E também há crítica velada e imanente ao vórtice daquilo que é a vida no presente, a tal dança furiosa em espiral marcada pelo ritmo alucinante com que a sociedade contemporânea soma os seus dias. “BiT” bem pode começar num “Jardim da Celeste” e acabar no “Mito de Sísifo”, afinal a vida é sempre feita desse binómio entre escalar e deslizar.

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