“As Raposas”- Uma ‘tragicomédia de enganos’ no Teatro Nacional de São João

Há uma cortina de palco que funciona como uma espécie de véu virtual para os espectadores quando estes entram na sala do Teatro Nacional São João e se deparam com uma escadaria plasmada. Na verdade, mal sobe o pano e quando a peça se inicia, verifica-se que a dita escadaria é um decalque de uma real que aparece num cenário interior do palco e que se impõe ao olhar pela volumetria ostentada. E também pelo seu simbolismo.

Possui algo de escheriano aquele vasto e imponente conjunto de degraus pintados de negro. A alcatifa que se espalha ao longo do estrado é vermelha. Eis as cores dominantes: o vermelho e o negro… se nos lembrarmos de determinadas características da obra literária de Stendhal, mesmo noutra época e num plano e enredo diferenciados, temos: o amor (neste caso a ausência dele), o poder, a traição e a morte, sim isso são ingredientes existentes em múltiplos romances, conquanto que a partir daqui talvez estejamos autorizados a especular um pouco.

Para além deste elemento cenográfico nuclear, existem um sofá, dois maples, uma mesa e algum mobiliário de apoio. Lá mais para trás há uma espécie de biombo transparente que a espaços permite ver a paisagem e ainda um piano de cauda.

No cenário descrito, por onde passa uma criada em arrumações e preparativos para uma recepção ao jeito de um pequeno cocktail, há uma família, os Hilton, que tentam a todo custo fazer negócio, por via de uma sociedade, com William Marshall (Eurico Lopes) e estabelecer assim uma companhia poderosa.

A adaptação da obra de Lilian Hellman nesta versão de João Lourenço e Vera San Payo de Lemos permitiu ajustes para a vivência de um tempo mais actual, tornando o ‘con… texto’ mais perceptível: substituição do dólar por euros, dos campos de algodão pela cultura vínica e pelo ecoturismo tão vigente no tempo presente, dos criados negros por uma empregada, bem como pela actualização de outros elementos, tal como Vera San Payo de Lemos sugere no programa da peça (da qual é responsável pela dramaturgia).

O que cativa em “As Raposas” é a linearidade clara de uma ambição desmedida e sem escrúpulos na conveniência de uma união entre os irmãos Regina Giddens (Luísa Cruz), Benjamin Giddens (Vergílio Castelo) e Oscar Giddens (Marco Delgado), a que se juntará o filho deste último, Leopoldo Hilton (Pedro Caeiro), dispostos a tudo para dar o golpe, que o mesmo é dizer arranjar o dinheiro, tenha ele a proveniência que tiver, só para conseguir atingir a quantia perfeita para assumir a quota na sociedade com William Marshall.

A estratégia múltipla e ardilosa que perseguem leva-os a tentar fazer com que o marido de Regina, Henrique Giddens (João Perry) regresse mesmo que muito doente da sua convalescença na Suíça, convencendo para o efeito Alexandra (a filha de ambos), na plenitude da sua bondade ingénua, a ir buscar o pai, afinal o detentor das acções que permitiriam assumir o capital necessário à realização da sociedade. Henrique vai mostrar-se inflexível em ceder às pretensões da mulher, Regina, que em boa verdade nunca amou o marido. Tal e qual como Oscar Giddens (Marco Delgado), que viu na mulher (a última e única representante da aristocracia rural a quem as terras pertenciam), Betty Hilton (Gracinda Nave), a quem ‘fornece’ maus tratos, apenas mais um degrau na escada, para subir em termos de poder e riqueza.

João Perry_Virgílio Castelo_Marco Delgado

É a condição humana em jogo, um jogo com o seu quê de fratricida, uma vez que a união entre os irmãos só existe para a satisfação de um objectivo e ao sabor das circunstâncias e facilmente degenera em cada um por si. A crítica é implícita, anda longe de ser velada, antes pelo contrário, torna-se bem notória aos olhos do destinatário espectador e percorre de fio a pavio a trama da peça. E no fim, sim, no fim há uma escadaria que nos conduz à subida do patamar das ambições, para a morte, ou quiçá para os céus.

No tabuleiro do xadrez interpretativo, em que na generalidade todas as peças se pautam por um desempenho a preceito, talvez não seja indelicado destacar o xeque-mate performativo de Luísa Cruz (sempre a crescer). Vergílio Castelo, Marco Delgado e Gracinda Nave, em muito bom plano, conferem um vértice de experiência ao elenco e sabem acolher e integrar as prestações dos mais jovens Diana Nicolau e Pedro Caeiro. Sofia Cabrita encarna bem o papel da criada. João Perry continua a ser um dos melhores da sua geração. A encenação de João Lourenço, faz uso de um manancial de recursos cenográficos e interpretativos que permitem ao espectador o entendimento e assimilação do jogo dramático, do início ao fim da peça.

A peça ainda pode ser vista hoje, sábado, às 21h00, e amanhã, domingo, às 16h00, no Teatro Nacional de São João, no Porto.

Texto: João Fernando Arezes

Foto: ©Teatro Aberto

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