Colocar em palco o universo de Franz Kafka, plasmado num trabalho em versão de teatro para marionetas, é desde logo uma iniciativa arrojada. E algo original, acrescente-se. E se o título da peça encerra algum segredo, um mistério insondável, a obra do incontornável escritor checo estará sempre em conformidade com esse enigma.

Os quadros cénicos versam momentos distintos da obra do autor, numa interpenetração entre a realidade e a ficção e por vezes com recurso à fábula. A “Metamorfose”, “O Processo”, “América” e “O Castelo” pairam por aqui. “Arcano” é um tributo ao génio de um dos maiores escritores do século XX. Poucos terão versado de forma tão intensa a problemática da violência psicológica e física, a conflitualidade familiar, bem como a temática dos enredos extremos da burocracia enquanto máquina castradora do progresso social.

As imagens sugeridas pelas marionetas e a respectiva actuação, em conjunto com os demais dispositivos cénicos, traçam-nos o entendimento da dramaturgia adoptada que serve de elo unificador às parcelas literárias de Kafka apresentadas.

créditos: Susana Neves

Por mais que o autor checo seja sinónimo de algo labiríntico, a abordagem de episódios narrativos entrecortados serve a simplificação do propósito de expor a biografia e a carreira do autor. Seres e criaturas, alucinação e realidade habitavam o imaginário do escritor e tudo isso é perceptível aos olhos do espectador em o “Arcano”, esta incursão teatral possui essa virtude pedagógica de o mostrar, mesmo que em fragmentos. Rui Queiroz de Matos, que assina esta produção do Teatro de Marionetas do Porto para o FIMP – Festival Internacional de Marionetas do Porto, assegura que foi fácil criar a peça: “Quando comecei a mergulhar na obra de Kafka, a ideia para a peça foi imediata”, sublinhou.

Atente-se no bailado dos Techno Insects, uma ousadia a preceito para quem for ao Teatro do Campo Alegre, hoje sexta-feira, às 21h30, e/ou amanhã, sábado, às 17h00.