“Anjo” Olsen ‘a…mant(a)izou-se’ com Guimarães

O segundo capítulo do Festival Manta, em Guimarães, a 5 de Setembro, acolheu os cachos de gente que se dispuseram no recinto exterior do Centro Cultural de Vila Flor, um amontoado de cabeças aos socalcos, com uma noite amena. Mudemos o tempo verbal para o presente, que assim vai prevalecer, para contarmos a história em conformidade com a actualidade da memória…

Um ligeiro compasso de espera em relação à hora marcada, 22h30, e Angel Olsen surge em palco com uma t-shirt branca, calças pretas, sobressai-lhe ainda um colar dourado que lhe envolve o pescoço, o cabelo está apanhado. Calibra o som, afina a guitarra, e bebe um trago de cerveja. Responde logo em seguida a alguém da assistência que considera que a cantora está a consumir uma Sagres, quando deveria estar a beber uma Super Bock, uma vez que está no Norte.

A acompanhar Olsen, em registo de quarteto, há um baixo, uma guitarra e uma bateria. A voz sai-lhe amansada e projecta-se no espaço, o palco está debruado em tons violeta, resultado do cruzamento entre luzes azuladas e vermelhas.

Olhando para as músicas que vão fluindo aos poucos, “Drunk with a dreams” revela uma sintonia instrumental para além daquele timbre límpido, às vezes a namorar um sussurro surpreendente e meigo da líder. “Lights Out” revela uma espécie de canto sentimental numa mansidão escutada com reverência pelo público. Dir-se-ia, por uma parte significativa do público, a verdade é que há gente que se diverte a pôr a conversa em dia num concerto para o qual não pagou.

A bateria a cargo de Josh Jaeger insinua-se a espaços e a guitarra de Stewart Bronaugh conduz-nos por longínquas paragens da América do Norte mais profunda. Olhando para a silhueta deste último músico e para o contexto melódico, mais parece que estamos a vislumbrar uma cena de “Paris, Texas”, e salta-nos à memória a magnífica interpretação do circunspecto personagem interpretado por Harry Dean Stanton, muito parecido com a figura de Stewart.

Foto: Paulo Pacheco
Foto: Paulo Pacheco

The Waiting” vai na mesma entoação harmoniosa da voz, não obstante a força instrumental que emana do tema. “Emily Elhaj, por seu turno, continua naquela atitude segura desde o início do concerto, mesmo quando assume uma postura descontraída.

E numa noite com tantas estrelas omnipresentes, do palco até ao firmamento, “Stars” revelou-se um daqueles temas do miolo do espectáculo, a tender do meio para o final, dispostos a cativar um público já de si seduzido.

Em “Miranda”, o folk rock, de Olsen leva-nos a planar e “White Fire” soa ainda mais intenso, de uma tristeza simultaneamente bela e penetrante, com a cantautora sozinha no estrado a dedilhar a guitarra e a enlear-nos, qual sereia, com o seu canto. Hi Five” é muito saudada logo quando os primeiros acordes ecoam.

Foto: Paulo Pacheco
Foto: Paulo Pacheco

De entre as que merecem referência, está naturalmente “Unfucktheworld”, um tratado de reflexão emocional e amorosa. E mais à frente o encore acontece com “Tiniest Seed” e se Angel Olsen já tinha sido ‘a encarnação’ de Johnny Cash e Leonard Cohen, entre outros(as), bem podia acabar à boa maneira e com a classe de uma Emmylou Harris: foi mesmo em toada country que findou a actuação, a guitarra eléctrica bem que podia ter dado lugar ao banjo para o efeito. Alguém na assistência ficou a clamar pelo clássico “Windows”, mas o ‘programa operativo’ da cantora não contemplava o tema em questão. O álbum “Burn Your Fire For No Witness” (e demais temas dos outros discos) deixou os corações em chamas a necessitarem dos bombeiros sentimentais, tal é a capacidade que Angel Olsen tem para nos en… cantar.

Texto: João Arezes
Fotos: Paulo Pacheco

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