Andrew Bird regressou a Portugal para dois concertos no âmbito do Misty Fest, o músico natural de Chicago veio dar a conhecer o seu último registo, “Are You Serious” (Abril de 2016), ao público português – que tão bem o tem acolhido numa série significativa de incursões que o músico tem feito por landas da “Lusitânia”. E foi cerca das 21h35 que as luzes se apagaram e o americano assomou ao palco da Casa da Música.

Como é seu apanágio, pegou no violino e registou para uma instantânea memória futura os primeiros sons de Hole in The Ocean Floor. À medida que afaga as cordas do instrumento assobia naquele timbre peculiar e em seguida canta e usa ainda o glockenspiel (metalofone) cuja sonoridade se expande como de um espanta-espíritos se tratasse.

Em “Journey in Satchi Satchidananda” converte o violino num banjo e a música enche o espaço, Bird é um autêntico homem-orquestra, com todo aquele pré-registo de sons instrumentais que o acompanham e perseguem até ao fim dos espectáculos. A mistificação causada pela dúvida tantas vezes suscitada pelo facto de estar sozinho em palco e do impacto sonoro dessa condição não ter o mesmo resultado para quem o ouve do que nas situações em que toca com músicos a acompanhá-lo cai por terra logo ali, que o mesmo é dizer cai por palco.

E é com Capsized que entra nas profundezas do derradeiro álbum. Aproveitou para enfatizar de forma prévia em discurso breve: “Esta noite estou a sentir algo estranho, o meu País está a viver estas eleições tão importantes e eu não estou lá, votei por correio!”, mal ele sabia que o resultado do sufrágio eleitoral confirmado na manhã seguinte daria a vitória a Donald Trump.

andrew-bird_0007Cavalgar numa pradaria da América mais profunda parece ser a sugestão imagética em Tenuousness. O indie folk afirmado sai-lhe em tom quase performativo na dose de teatralidade que adopta, o assobio vigoroso regressa a espaços. “Are You Serious”, tema homónimo do álbum, sai com aroma musical a blues, folk e até soa a country.

E paulatinamente o artista vai cativando os presentes com o seu talento de multi-instrumentista. “Why” leva-nos na correnteza. Ao violino, elemento nuclear no diapasão instrumental de Bird, junta-se a guitarra, e os loops fazem o resto. Mas a voz ganha aqui outro enlevo. E Anonanimal soa densa, talvez mais conceptual, o charme do violino flui espaço adentro, com aquele trinar tão típico e o assobio como companhia.

Uma advertência precede “Sick of Elephants”, o tal tema cuja criação se deve à reeleição de Bush, como explicou o compositor à assistência, premonição talvez seja a palavra mais adequada para descrever o instinto de Bird, falar de Bush quando o espectro de vitória de Trump não cabia nos neurónios dos mais cépticos não deixou de ser uma alusão bizarra.

Seguem-se Chemical Switches e Saints Preservus, ambas do derradeiro registo, esta última foi inicialmente concebida para integrar a banda sonora de “Django Unchained”, o filme de Quentin Tarantino, o que não acabou por suceder.

O concerto já há muito ganhou lastro e Andrew Bird soube dar-lhe a intensidade própria dos músicos talentosos. Left Handed Kisses comprova esta asserção e sugere a (omni)presença de Fiona Apple, num dueto que graças a este tema de “Are You Serious” tem vindo a causar furor.

andrew-bird_0002Todavia, o momento zénite do concerto haveria de acontecer com uma versão, a todos os títulos notável, de “Estranha Forma de Vida”, tema cantado pela imortal Amália Rodrigues e pelo qual Bird se apaixonou, ao ponto de fazer questão de ir tocar a música para o Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa. Fazer o violino ‘rimar’ com uma guitarra portuguesa, ainda por cima com tamanha desenvoltura, não é de facto para qualquer um, o americano foi exímio no cumprimento do desafio.

E dir-se-ia que com Lusitania continuávamos no universo português do músico de Chicago. As luzes incidem discretas sobre o palco, numa sobriedade que faz sobressair uma acústica de camadas instrumentais sobrepostas.

Roma in Fade é daquelas músicas mexidas, que propõe no mínimo uma agitação da cabeça. Percebemos que o concerto atingiu o último embalo para o derradeiro lote de temas a serem executados. Three White Horses prossegue naquele tom intimista e baladeiro. Segue-se Pulaski at Night, em que fala da sua cidade natal, Chicago. Mas ‘o público não o deixa ir para casa’. Segue-se o encore, que é portador de Give It Away e Weather Sistems. Os aplausos de pé premeiam mais uma prestação irrepreensível de Bird, que ao longo de mais de uma hora e meia fez valer os seus imensos recursos de “one man show” para conquistar a plateia.

Uma palavra de apreço para o brasileiro Momo que fez a primeira parte do espectáculo e do qual se ouviram temas de carácter intimista com selo de qualidade.

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