Ana… a ‘Moura Invicta’ que (en)cantou o Coliseu do Porto

A hora marcada para o início do concerto aproxima-se e a sala magna do Coliseu do Porto vai-se enchendo de gente. Estamos no primeiro de dois episódios que hão-de trazer até ao palco portuense a fadista nascida em Santarém (embora a verdadeira terra natal da cantora seja Coruche). Ao entrar na sala, os espectadores deparam-se com uma película a envolver a parte cimeira do palco, bem com a parte mais abaixo do estrado. Viremos a perceber um pouco mais tarde que a referida película representa as asas de uma borboleta.

O palco, em pleno ciclorama, ostenta a assinatura da fadista. O auditório da velhinha sala da Rua Passos Manuel está polvilhado de gente que na sua maioria anda pelos 30 anos de idade e daí para cima. Muitos estão de telemóvel na mão a tirar fotografias ao palco, que denota um apuro estético trabalhado ao pormenor, revelador de uma produção afinada e profissional e que levará Ana Moura até múltiplas paragens em registo de digressão internacional.

Há um burburinho reinante no espaço e um quarto de hora depois das 21h30, o proverbial atraso português (sabe-se o quanto é complicado o estacionamento na zona, mas mesmo sendo numa sexta-feira, o alargar das horas tornou-se um problema institucional que virou tradição) determinou que o concerto começasse mais tarde que o previsto.

O público dá uma ajuda e reclama a presença da fadista e dos seus músicos, com recurso a palmas sincopadas. Pouco depois as luzes apagam-se. Sente-se alguma reverberação sonora inicial. A tela/película sobe. Ana Moura surge com um vestido negro luzente, elegante e firme na postura, ouve como os demais o som que Ângelo Freire extrai da guitarra portuguesa, naquela toada de rendilhado característico que ecoa sala adentro, logo após os aplausos da entrada da cantora e dos músicos.

Por esta altura, o palco está vestido de tons alaranjados cujos matizes irrompem dos projectores. O som sai ainda algo sujo em “Moura Encantada”. Há um bosque projectado e as luzes azuis propagam-se, o som está mais calibrado em “Ai Eu” e a voz da fadista acentua-se com uma calidez insinuante. A borboleta iluminada que se sobrepõe ao estrado, qual testemunha privilegiada, confere um tom peculiar à atmosfera do palco.

Um “Boa noite, Porto!” efusivo sai da garganta da fadista, “Meu Amor foi para o Brasil” sai logo depois, não sem que antes Ana Moura afirmasse “Metade dos elementos da banda são daqui e metade de mim também é daqui bem perto, de Amarante!”. O palco torna-se policromático, com fumos e raios de luz amarelos a cruzá-lo de lés-a-lés. A voz encorpada de Ana Moura projecta-se. Em “Fado Dançado” evoca o amigo da Maia, Miguel Araújo, autor da música e da letra. E explica que no século XIX o fado era dançado, o vídeo mostra uma diversidade de pés em bailio enquanto se canta. As palmas ritmadas do público dão um ar da sua graça, a animação é geral.

O concerto vai em crescendo e ainda agora se parte para o quinto tema. E se Ana Moura concita todas as atenções, o lote de músicos é de primeira água: com Mário Barreiros na guitarra eléctrica, Pedro Soares na viola, Ângelo Freire na guitarra portuguesa, João Gomes nos teclados (Hammond), André Moreira no baixo e Mário Costa na bateria, este naipe torna as coisas certamente mais fáceis e seguras para a fadista. E assim foi ao longo de duas horas.

“Desamparo” plasma-se no ar de mãos dadas com as luzes de variados tons azuis e nesgas de fumo branco, a guitarra de Ângelo Freire sempre ali a soar (quase poderíamos dizer a suar) e a impor-se a espaços, com a voz encorpada de Ana Moura a vaguear pela sala, por vezes com aquela tomada de pose esfíngica que ela adopta a cantar. E com o tema agitado e gaiteiro “Agora é que é” entra-se numa toada de animação e o público gosta, naturalmente.

“Cantiga de abrigo” (letra de Samuel Úria) abraça-nos em toada aveludada, mais em modo canção. Em “Ninharia” a voz quente enleia a assistência, num momento cujo índice de expressividade vocal registou uma das melhores prestações do espectáculo, bem como ‘a secção das cordas’ que teimou em sobressair.

E o concerto prossegue com “Fado Tradicional”. O trinar rendilhado da guitarra de Ângelo Freire volta a mostrar-se com todo o vigor e estética musical em “Porque teimas nesta dor”, o exímio e virtuoso instrumentista é tributado com aplausos soltos a partir da assistência ‘vai por ali fora sem pagar portagem’, muito bem acompanhado no baixo e na viola.

A verdade é que o momento de absoluta sublimação artística deste concerto acontece com o surgimento de uma figura corcovada na penumbra que, de forma paulatina, quase em ritmo de pé-ante-pé, entra no palco pelo lado esquerdo e vai de encontro à fadista, dançando em redor da intérprete, não sem que antes se lhe adivinhasse uma transcendente expressão corporal, viemos a saber tratar-se de Romeu Runa, o grande bailarino português que trabalha com a companhia belga les ballets C de la B.

O instante descrito é antecedido à guitarra por Ângelo Freire, com os acordes de “Mudar de Vida” (uma das imortais de Carlos Paredes) e vai redundar em “Maldição”, num tributo à eterna diva Amália Rodrigues. Um momento que reclama a palavra arrepiante, como forma para melhor o descrever. Certo é que a grande parte da assistência se levanta para aplaudir o instante.

Seguem-se “Guitarrada”, com os músicos a demonstrarem grande energia colectiva e “Eu Entrego”, um tema que se afirma quase em toada intimista. “Nem quero nem saber” (chancela de Sara Tavares na letra e Kalaf Epalanga na música) afina pelo mesmo diapasão. “Valentim” é o regresso à toada rítmica impressa em “Agora é que é”, que o mesmo é de dizer, de tradição popular e muito animada.

E tal como o apanágio simbólico da borboleta, Ana Moura já sofreu a sua metamorfose na indumentária, numa mudança para um vestido branco e dançou de forma algo ululante em “Valentim”.

O concerto entrou no último terço, “Moura” tem o carácter autobiográfico, a simbólica borboleta esvoaça. A voz está no ponto, há um solo a despontar na guitarra eléctrica de Mário Barreiros (uma das figura-chave dos Jafumega) e tudo redunda numa devota intensidade no diálogo instrumental.

Ensaia e canta com sucesso assinalável o refrão com o público em “Leva-me aos fados” e arrisca logo em seguida “Os búzios”, os músicos estão cobertos por um intenso azul-bebé em pleno palco. “Tens os olhos de Deus” extrai-lhe emoção na voz e a harmonia instrumental é notória, com uma assinalável prestação dos teclados de João Gomes e na bateria a cargo de Mário Costa.

O tom retorna aos fados mais animados com “Bailinho à Portuguesa” e confirma a empatia da banda e da fadista com assistência em “Dia de Folga”, em que a intérprete chama algumas crianças ao palco para a acompanharem, um convite de belo efeito e melhor resultado.

O típico bater de pés no soalho do Coliseu resulta num regresso ao palco, o encore é portador de “Loucura”, “Desfado” e o pano cai em definitivo com “Fadinho Serrano”, em perfeita comunhão com as perto três mil almas que ali se deslocaram para ouvir a(s) história(s) da Moura Encantada, que afinal vão continuar a ser ouvidas por esse mundo fora.

Texto: João Arezes

Fotos: Diogo Baptista

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