Foi um dia marcado pelo ‘Amor ao Electro’ e aí ‘Justice’ lhes seja feita! Mas o pano desta edição do Nos Primavera Sound 2017 subiu com um Samuel Úria algo divertido, num concerto que foi um acto de generosidade simpática para a primeira porção de gente que o Parque da Cidade acolheu.

Os Cigarettes After Úria, perdão, After Sex, estiveram bem, naquela toada melancólica que os caracteriza. Os quatro texanos, de negro vestidos em terra do fado, auxiliaram ao acolhimento do público, que de forma naturalmente crescente ia ocupando o relvado do magnífico espaço de acolhimento musical por estes dias. Greg Gonzalez, com aquela modulação de voz que se por acaso não o estivermos a observar, assume um canto algo feminino e singelo, guiou os presentes através das baladas distintas que os de El Paso produzem. Naturalmente que o hitNothing Gonna Hurt Baby” fez furor, mas eles têm mais para mostrar e foi isso que fizeram, por exemplo com “Sunsetz” ou “Affection”. Uma banda que faz da contenção e sobriedade uma mais-valia para cativar quem os aprecia.

No cumprimento dos horários estabelecidos, com os músicos em plena observância pelas regras temporais, seguiu-se a prestação de Rodrigo Leão & Scott Matthew no Palco Super Bock. Deve assumir-se que o projecto que une o português ao australiano tem tanta gente a apreciá-lo como a mesma dose de pessoas a reservar-lhe alguma incompreensão. A razão mais plausível é a proverbial espera pela validação internacional para a natural certificação e aceitação lusitanas. É quase sempre assim. É multisecular.

Às 18h50 lá estavam todos em palco. Com uma boa entrada musical, mas com o volume um tudo nada mais alto do que o desejável para o tipo de música praticada ao longo do concerto. A voz de Scott Matthew sentiu o esforço e ele próprio acabou a brincar com isso, a esganiçar Mickey Mouse e a satirizar o tom em que tinha cantado. E o primeiro grande momento digno de algum furor fez-se com “Abandoned”, um dos temas icónicos do barbudo natural de Queensland cujo vozeirão faz chorar os crocodilos.

Tocou alguns temas sozinho no estrado, apenas com a guitarra acústica, como “I Wanna Dance With Somebody”, de Whitney Wouston, uma das que Scott desafiou o público a adivinhar logo na sequência dos primeiros acordes, ou “Smile”, de Charlie Chaplin. Todavia, a simbiose funcional dos dois músicos e da trupe instrumental que os acompanha é sempre de assinalar. Viviane Tupikova é uma instrumentista versátil e acrescenta beleza ao diapasão musical, no domínio do violino, mas também no sintetizador. O trombone de Marco Alves deixa um lastro de densidade melódica apreciável, ele que também está ao leme do metalofone. Por seu turno, João Eleutério mostra ambivalência na guitarra e no baixo e Frederico Garcias é, por mais paradoxal que seja a expressão, uma certeza promissora.

E como tributo a esta vi(d)a longa, que é a nossa própria estrada existencial, a empresa ‘Rodrigo & Scott’ reservou-nos o álbum Life Is Long: “That’s Life” e o tema homónimo “Life Is Long” e quem (ou)viu apreciou com reverência.

A mudança de palco, do Super Bock para o NOS, fez-se ao som de Miguel, nome do rapaz de Los Angeles que confere a denominação à banda. A grosso modo, poderíamos dizer que o perfil do músico se situa entre um Prince e um Lenny Kravitz, embora não toque guitarra. Certo é que Miguel Jontel Pimentel e os seus apaniguados de palco foram os primeiros a agitar as hostes, com um som vibrante e projecções vídeo incendiárias e explosivas no ecrã. Houve soul, r&b, funk, pop e rock a rodos que acabaram por contaminar a audiência durante quase uma hora.

Nova romaria até ao palco ao lado, no sentido inverso, do NOS para o Super Bock, desta vez para apreciação dos escoceses Arab Strap. E naquela toada de um positivo sentimento de identidade nacional, somos brindados com o som pré-gravado das incontornáveis e simbólicas gaitas de foles a anteceder a entrada.

Em rigor, e excluindo os apreciadores mais puristas do segmento musical mais afecto à electrónica, bem pode dizer-se, sem qualquer heresia (apesar do grau de subjectividade das opiniões e análises), que a banda de Aidan Moffat concedeu o espectáculo de maior conjugação harmónica a que assistimos no primeiro dia. Um indisfarçável bom gosto na estética instrumental: onde um violino, duas guitarras, baixo, bateria, teclados e programações erigiram sonoridades calculadas e à medida do canto declamado do vocalista, que fez questão de mostrar o fel que o move face ao partido dos conservadores ingleses, o epíteto soou como “Fukin Tories!”.

“Here We Go”, “Don’t Ask Me To Dance” e “On A Speed Date” foram alguns dos temas através dos quais os escoceses destilaram classe. Fazendo jus ao termo mais na moda em Portugal Continental e insular, Moffat esteve sempre muito focado, dir-se-ia ‘fuckado’ pelo grau de frequência da palavra no seu léxico. E a verdade é que tal como alguém disse: “Foi Fuckin’ Amazing!”

Os Run The Jewels apresentaram-se à hora combinada, às 22h20, no Palco NOS, e bem pode dizer-se que criaram a primeira grande atmosfera de verdadeira euforia e frenesim: o hip hop imerso em algum activismo social cativou os presentes e levou-os a seguir os líderes em palco. EL-P e Killer Mike ofereceram doses de descarga de expressão verbal. Em “Ticketron” ou em “Down”, tal como nas outras, dialogaram, galgaram palco, declamaram costas com costas, incentivaram o público e receberam os louros. E claro o colar e a pulseira de Killer Mike ficaram na retina, tal como o porte.

E a toada pingue-pongue entre palcos levou-nos de novo até ao Super Bock. “ Flying Lotus” entrou em cena por volta das previstas 23h30, para um emoldurado concerto. Uma prestação a partir de uma mesa, que envolta num quadro luminoso por onde se passeiam luzinhas, acabou por tornar-se o centro dos efeitos imagéticos de grande intensidade, grafismos, a sugerir 3D. Quem não tinha inalado o fumo das chaminés fumegantes por entre o público, entrou numa autêntica viagem astral. E assim, Steve Elisson aka Flying Lotus, apresentou-se com o perfil sombreado cuja figura se chegou a assemelhar a uma espécie de Jamiroquai.

Finalmente, já perto da 01h00 da madrugada, entram em cena os Justice. O muro sonoro, que aparenta estar equipado com 36 colunas Marshall, em pleno palco, é demolidor. O sistema de luzes não aparenta à partida a dimensão que o vemos conferir ao espectáculo ao longo de toda a missa electrónica. Os fiéis são, por contradição, pecadores confessos. Xavier de Rosnay e Gaspard Augé, os sacerdotes franceses de serviço (no ano passado, os clérigos conterrâneos tinham sido Nicolas Godin e Jean Benoît Dunckel, ou seja os AIR) iniciam os rituais melódicos e parecem estar numa mescla entre um púlpito e uma nave espacial. Foi só carregar no play, e do início ao fim os peregrinos pareciam não falhar nas orações, que uma boa parte sabia de cor e salteado. Toneladas de luz e som enlearam “Genesis” e “Phantom” foram as que mais agitação desencadearam. Noite de descanso, para retemperar forças, que amanhã há mais… Primavera.

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