Alma de Peixe

Toupeirinho é alcunha. O diminutivo vem da descendência, o dono da casa. Assim se explica o nome que José Silva deu ao seu restaurante na rua do Godinho, em Matosinhos, a servir há dez anos magnífico peixe e marisco.

A casa é muito pequena, mesmo pequena, conseguindo sentar à volta de 20 pessoas entre paredes nuas de granito, escaparates cheios de vinhos, a barra do pequeno bar onde assenta o pescado e os frutos do mar do dia e uma montra das sobremesas disponíveis. E há espaço para tudo!

O Sr. Silva é o timoneiro deste barco. Conhece a faina da restauração desde a adolescência, recebe-nos, senta-nos, recomenda o que tem e como deve ser confeccionado e acompanha-nos durante a refeição. Ou seja, trata muito bem os comensais e é bem coadjuvado pela sua equipa de sala e de cozinha. Num espaço tão pequeno, é bom ver uma organização que funciona.

A lista de vinhos é extensa e adaptada ao receituário do “Toupeirinho”. Embora não se centre nos brancos, algo muito comum nos restaurantes de peixe de Matosinhos, a sua oferta neste tipo de vinhos é grande e divide-os em vários tipos, conforme a abordagem que pretendemos fazer do repasto: frescos e aromáticos, encorpados e opulentes e momentos de exceção. Algumas classificações mais românticas que outras mas perfeitamente perceptíveis e apoiantes da escolha. Para os tintos é a mesma coisa. A lista contará com perto de 180 referências, excluindo uma excelente gama de Portos para a sobremesa e de whiskies e aguardentes para o final.

O couvert centra-se em pãezinhos quentes e broa torrada no momento “barrada” com azeite fresco, azeitonas polvilhadas de orégãos, manteiga e paté de sardinha.

Depois de escolher o peixe e a confecção propostas, esperamos com algumas entradas sobre a mesa. Das visitas efetuadas a escolha caiu sobre as amêixoas à bolhão pato e o presunto fatiado, mas também é possível escolher vários mariscos do dia, navalheiras, camarão, lagosta e a célebre salada de lavagante, onde o animal é regado com um molho baseado na receita “vinaigrette”.

Sável de escabeche, no seu tempo,

Tive a oportunidade de provar o sável com dois tempos em escabeche: um com cerca de quinze dias dias e outro com três. No mais curado, a proteína estava já tão homogénea que não se sentia a diferença entre a carne e as espinhas, sendo possível comer tudo sem receio. Um sabor intenso do vinagre e da cebola, muitíssimo delicado e equilibrado nos sabores. O de três dias estava ainda rústico, mas ia no mesmo caminho. Os sabores do escabeche ainda não estavam casados, o sável ainda fibroso, mas já era óbvia a integração do peixe com o molho e a união dos seus sabores. Com mais tempo só poderia melhorar.

As amêijoas à bolhão pato,

Chegaram apenas escaldadas, como se pretende (e não cozidas), no caldo da cozedura. Realce para o alho e os coentros muito frescos que apuraram o aroma do prato ainda antes deste chegar à boca. As amêijoas apresentavam uma textura suave e delicada, consistente, à medida que iam desaparecendo do prato. Foram acompanhadas com limão verde para dar acidez, frescura e equilibro e contrabalançaram bem com os coentros.

O presunto,

Do sul, raramente falha neste restaurante. A escolha desta matéria-prima costuma ser cuidada. Cortado muito fino e com os veios de gordura a intercalar a carne curada, adicionando sabor e corpulência, fazem desta entrada um momento curto e agradável.

A peça de pargo ao sal,

Desmontou a ideia de que só podem ser confeccionados ao sal peixes inteiros. Como o jantar foi para dois, não se justificava (nem havia disponível para este número de comensais) um animal inteiro. Mas fomos descansados pelo Sr. Silva quanto ao risco de cozinhar assim apenas uma posta. E arriscamos. O show pirotécnico provocado pelas chamas que emanam do tabuleiro quando vem para a mesa acrescenta expectativa ao sabor com que o animal ficou à saída do forno. Mas isto também faz parte de comer.

A peça estava apurada, no ponto, cheia de sabores frescos, a mar e suculenta. O pargo é um peixe branco e com fibra rija e ao passar da faca separou-se em lascas. O bacalhau não é o único. Bom de sal, foi uma excelente opção para desmistificar o risco deste tipo de forno numa peça e não num peixe inteiro.

Infelizmente, o acompanhamento não esteve à altura. O arroz de grelos malandrinho chegou sem molho, passado do ponto e já bastante pastoso. Acredito que tenha sido desta vez, pois noutras ocasiões tal nunca aconteceu.

O Sr. Silva com um rodovalho de 18 kg

Rodovalho na grelha,

Um rodovalho de posta alta, da qual comemos a parte frontal. Foi à grelha e servido com azeite com alho a gosto do comensal. Chegou húmido á mesa e apresentou uma carne clara, muito consistente e delicada na boca, com uma pele que também comemos e que muito nos agradou, pela surpresa da textura. É sempre bom descobrir coisas novas! Foi acompanhado por batatinhas a murro, bem assadas e de textura firme, também regadas com o azeite com alho.

Na sobremesa a opção foi única, mas o café é complementado com alguns mimos muito saborosos.

Sericaia com ameixa de Elvas,

Apresenta-se uma fatia generosa, com a massa bem cozida sem estar seca e bem coberta de canela. A calda e a ameixa misturam-se bem com a sericaia, harmonizando o prato.

Com o café, o “Toupeirinho” apresenta dois mimos: queijadinhas e “papos de anjo”, ou barrigas de freira. As queijadinhas são doces e de textura muito suave e leitosa, com a cobertura tostada e caramelizada. Muito boas. As barrigas de feira vieram com uma hóstia muito fina que serviu para guardar um magnífico doce de ovos intenso e poderoso, com um final fresco.

Em suma, o “Toupeirinho”, pequenino, familiar e aconchegante é assim, uma casa com alma de peixe que se preocupa com o trabalho sobre a matéria-prima que serve e com o regresso do cliente.

Preço médio por pessoa, com vinho, 45€

Texto e fotos de Paulo Russell-Pinto

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