Agrupamento a sério

Cara/o Concidadã(o):

Vou abster-me de comentar o facto de este Estado se querer reformar antes dos 40 anos, antes até dos senhores juízes do Tribunal Constitucional, enquanto obriga o cidadão comum a esperar até àquela fase da vida em que já se esquece das calças quando sai para o trabalho. Mas, no âmbito da mais propalada que concretizada reforma do Estado, as instituições públicas têm sofrido restruturações para, teoricamente, reduzir e racionalizar custos. Sofrer é, claramente, o verbo adequado para descrever o emagrecimento forçado de escolas, tribunais, freguesias, hospitais e centros de saúde sob uma tendência de corte que começou por ser de Primavera-Verão, perdurou como Outono-Inverno e ameaça agora entrar numa espécie de silly season dos remendos.

Falar de escolas é terreno minado. Convenhamos, o humor dos professores anda literalmente pela rua da amargura e agora só lhes chega doze vezes por ano, nos dias difíceis em que descobrem que afinal não há esperanças, apesar de terem sido coiso… Mas o período acabou — o Miguelista, isto é — e com o novo alento do Tribunal Constitucional arrisco a dar umas achegas sobre o assunto.

Com as consecutivas manobras de agrupamento, as escolas estão em extinção. Agrupam, reagrupam e re-reagrupam sucessivamente. Não tarda sobrará apenas a Lusófona como grande aglutinador do Ensino nacional, reunindo todos os graus de escolaridade. O bébé de Bragança, Portimão ou Covilhã, como o de Lisboa ou Porto, sairá de casa para o primeiro dia de pré-primária e regressará três meses depois já com uma licenciatura em Ciências Políticas concluída. O Estado, por seu turno, poupará um dinheirame chorudo e prenho de marketing eleitoral. Será preciso calçar umas sapatilhas Nike às incómodas leis de restrição ao trabalho infantil e alterar a Constituição para integrar estes promissores activos no nosso ávido mercado de trabalho, mas isso resolve-se facilmente com uma interrupçãozita na democracia.

Nem é má ideia. Em vez de criar agrupamentozitos da treta, de concelho, com seis ou sete escolas, urge criar um tera-giga-mega-agrupamento de escolas que englobe Portugal continental e Ilhas para abarcar a plenitude de escolas de todos os níveis, universidades inclusive. Este modelo deitará por terra algumas das grandes polémicas e problemas actuais da Escola pública. A saber:

  1. Propinas — todos pagarão desde a pré-primária e assim deixarão de estranhar na passagem à fase universitária. Ficam garantidos os princípios de igualdade e solvabilidade;
  1. Colocação de professores — passa a ser desnecessária. O professor pode (e deve) leccionar em qualquer ponto do País. Por exemplo, às 10h15 uma aula em Setúbal, às 11h10 a seguinte em Vinhais. Será talvez necessário aumentar, muito ligeiramente, a tolerância do segundo toque. No entanto, além da poupança burocrática, esta medida trará um encaixe financeiro tríplice: portagens, impostos sobre combustíveis e, naturalmente, multas por excesso de velocidade.
  1. Polivalência — os docentes passarão a leccionar integralmente a matéria dos vários graus da sua disciplina, desde a pré-primária à universidade. Agora monta legos com os petizes, depois vai engenhar pontes com os desempregados do amanhã; hoje ensina o “gugu-dadá” a lactentes, amanhã Teorias Avançadas da Comunicação a gandulos de traje académico que já mamam cervejola à bruta;
  1. Gestão e direcção — poupa-se uma pipa de massa em salários e complementos remunerativos, passando a gestão do agrupamento para a alçada exclusiva e directa do ministro. Quando um aluno mijar fora do penico (literalmente ou não, dependendo da idade), será levado ao Conselho de Ministros e, nos casos mais graves, o auxiliar de acção governativa Silva Carvalho mete-o na solitária uma semanita, a pão e água e com palitos nas unhas, para aprender a não espiar o colega do lado;
  1. Transporte escolar — acabam as carrinhas de transporte escolar. Neste modelo, que engloba Açores e Madeira, os alunos viajarão de avião e terão de saltar de pára-quedas na sua área de residência. De cada vez que houver uma nova greve da TAP vão a pé, e assim os números da obesidade infantil descerão drasticamente ao fim de um ano. Deixa, ainda, de haver o argumento comezinho da insularidade, pelo que os ilhéus começam a pagar impostos como os continentais – assim como assim, todos estamos rodeados de água e a afogar lentamente…

Haverá múltiplos outros benefícios relevantes materializáveis neste sistema, por exemplo eliminar rivalidades, competições desabridas entre escolas e aqueles rankings parvos que anualmente se fabricam, ter uma só festa de final de ano onde as possibilidades de engate para os alunos se multiplicam exponencialmente, e uma só viagem de finalistas em que os finalistas académicos tomam conta das crianças e vice-versa, em função do período do dia. Todavia, cara/o concidadã(o), não adianta alongar-me mais. Creio que já percebeste que a Escola vai ser, cada vez mais, um grupo.

Renato Filipe Cardoso

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