A vitória da diplomacia pública

Diego.78 / Foter / CC BY-NC-SA

A recente aprovação da Assembleia-Geral da ONU da Palestina como Estado observador não-membro, a par do Vaticano, pressupõe a vitória da diplomacia pública ou soft power (de Mahmoud Abbas) sobre o hard power (de Benjamin Netanyahu).

Tal reconhecimento de facto da existência do estado da Palestina, curiosamente na mesma data da criação do estado de Israel, ainda que com 55 anos de hiato, constitui um triunfo diplomático e pressupõe uma série de outras implicações, a saber: promove a reconciliação interna palestiniana com o Hamas, reforça o estatuto nas negociações directas com Israel, revigora o estatuto junto da comunidade internacional e as pretensões palestinianas de independência junto com o fim da ocupação israelita, bem como, constitui um volte-face na estratégia israelita e um sério aviso ao posicionamento histórico dos EUA.

Ainda que meramente simbólico para o estabelecimento em definitivo do estado da Palestina e inconsequente em termos do objectivo de ser membro integral da ONU – algo que o previsível veto dos EUA no Conselho de Segurança invibializa – o upgrade para Estado observador não-membro
facilita a admissão a outros organismos internacionais. Permite, sobretudo, instaurar processos por crimes de guerra contra líderes israelitas junto do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) e do Tribunal Penal Internacional (TPI) – o que explica as pressões e ameaças das autoridades israelitas e dos seus aliados para que a formulação da candidatura abortasse.

Se são claras as resistências israelitas, por esclarecer ficam os motivos que terão estado na origem do sentido de voto por parte da República Checa (único estado membro da UE a votar contra) e do Panamá, junto com Nauru, Palau e a Micronésia, que se aliaram aos Estados Unidos, Israel e Canadá no voto contra a aprovação da Palestina. Um tradeoff não muito abonatório para a diplomacia tradicional.

Há, no entanto, outros tradeoffs que podem ser favoráveis aos interesses palestinianos. Na eventualidade de uma intervenção no Irão, os EUA necessitariam do apoio da coligação de países da região integrando a Turquia, o Egito,a Jordânia, a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes. Em troca, tais países demandam progressos decisivos na resolução do conflito Israel-Palestina, o que poderá ser benéfico á pretensão do estado palestiniano independente e internacionalmente reconhecido.

Este Outono na Palestina, com ares de Primavera árabe, confirma que mais do que a resistência no terreno que garante a sobrevivência imediata, o futuro depende em grande medida da engenhosidade da intifada na diplomacia pública.

Rui Alexandre Novais,
leciona e investiga na área dos media e comunicação (CECS/UM, UP e University of Liverpool)

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