Um conjunto de jovens urbanos e universitários parte para a zona do Vale do Ave em pleno advento do Antigo Regime. Uns decidem abandonar os estudos e outros, no início da vida activa, a perspectiva das suas carreiras, com promessas de melhor remuneração, para se devotarem à prática de uma ideologia marxista-leninista numa zona rural, mas que é simultaneamente povoada de fábricas.

Dispostos a entrar numa tipologia de clandestinidade que rompe com os tradicionais cânones mais afectos à que conhecemos e que foi trilhada pelos elementos do PCP, os jovens baseiam a sua acção numa ‘liturgia ML’ que se apoia nas ‘bíblias mais libertárias’ as quais somam autores como Steinbeck, Arthur Miller, Marx, Simone de Beauvoir, Sartre, Brecht, Twain ou Gorki. A mala que está na casa feita habitat guarda títulos como “O Germinal” de Émile Zola, o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung, bem como obras que versam o existencialismo defendido por Sartre. Che, muito naturalmente, também está à cabeceira.

Helena, Alberto, Zé Manel e Clara são os ilustres representantes desta facção mais anti-imperialista e anticolonialista cuja existência na casa secreta onde habitam se faz de discussões ideológicas e de planos de evangelização revolucionária junto dos operários e camponeses. Têm uma policopiadora onde à noite produzem os panfletos que hão-de distribuir no âmbito da prossecução da luta ideológica que preconizam.

A vontade de mudarem o mundo está-lhes no sangue, mas por vezes subsistem dúvidas existenciais que fazem com que o amor seja reclamado no meio de toda aquela rígida contenção que parece reprimi-lo de forma quase fundamentalista em nome da sobreposição ideológica, uma situação em que o indivíduo abdica de si mesmo em prol do colectivo. Prova disso é o lacónico tom imperativo de Clara à interrogação de Helena: “E se me apaixonar aqui?”, “- Reprime!”, diz a primeira à segunda. O GPS político prosseguido tem como base a China e a Revolução Cultural ali operada, que servem de referência aos jovens.

As dúvidas, contudo, surgem também no domínio da própria condição, como quando Helena (a tecedeira) pergunta a Alberto: “Será que à noite, quando nos deitarmos, vamos começar a pensar como operários?”.

Clara é “a clandestina dentro da clandestinidade” por quem Zé Manel arrasta a asa, ele que foi conquistado para a ca(u)sa in loco e que apesar da sua ingenuidade bem humorada, é talvez o mais destemido. Alberto, o fiandeiro, é o mais sóbrio e racional. Composto por um elenco jovem, constituído por Bruno Martins, Catarina Gomes, Paulo Mota e Sara Barros leitão e que se afirma como um naipe de actores coeso e nivelado, que nos faz recuar até aos anos 70.

O jogo cénico-dramatúrgico faz com que tudo pareça estrutural: desde a colocação em cena dos adereços e elementos cenográficos pelos actores, bem como a condição dupla de narradores e intérpretes, um xadrez disposto em palco e do qual Gonçalo Amorim, que assume a encenação e à concepção geral do espectáculo sai vencedor com a sua equipa.

Em resumo e tal como o programa do espectáculo o traduz: “Juventude, amor, revolução, libido e realidade confundem-se e misturam-se com disciplina, regras, capitalismo, clandestinidade e utopia. São jovens a tentar viver os seus melhores anos.”

A peça pode ser vista hoje, sexta-feira, 27 de Outubro, às 21h30 e amanhã, sábado, dia 28, às 16h00 e 19h00.

A trilogia teatral que começou com a alusão aos anos 50 através da peça “O Grande Tratado de Encenação”, prossegue com os anos 70 à qual se refere a presente “Tecedeira que lia Zola” e findará com o trabalho alusivo aos anos 90, com “Maioria Absoluta”, peça cuja estreia está marcada para Março de 2018, também no Rivoli.

Um espectáculo de Gonçalo Amorim
Apoio Dramatúrgico Rui Pina Coelho
Cenografia e Figurinos Catarina Barros
Desenho de Luz Francisco Tavares Teles
Música Pedro João
Interpretação Bruno Martins, Catarina Gomes, Paulo Mota, Sara Barros Leitão
Duração Aprox. 90min

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