A pressão da campanha


Photo credit: DonkeyHotey / Foter / CC BY-SA

A tradição recente no domínio da comunicação política comprova que a natureza das eleições, e em particular o seu grau de competitividade, impactam na forma como decorrem as campanhas. Na verdade, não raro servem para justificar e acicatar o recurso a fórmulas consideradas discutíveis noutras circunstâncias.

As actuais presidenciais norte-americanas, em vista da proximidade das sondagens entre Barack Obama e Mitt Romney, constituem um exemplo emblemático da tentativa de alcançar todas as franjas plausíveis do eleitorado. Para além de visar o grupo dos eleitores indecisos – que normalmente são determinantes no resultado das eleições – a campanha de 2012 regista como tendência concomitante a do ataque ao abstencionismo.

Apesar de ausente da agenda mediática, o grupo progressista Greater Wisconsin Political Fund decidiu combater o abstencionismo por publicitar o histórico das participações eleitorais dos vizinhos. Tal forma de pressão social indutora do voto, numa tentativa de envergonhar e coagir os eleitores a cumprirem o seu dever cívico, só é possível graças a algumas idiossincrasias do contexto norte-americano: o acesso a dados privados, e o micro ou quase nano-marketing direcionado que caracteriza as campanhas norte-americanas, associados à já tradicional exploração das ligações sociais de proximidade e de vizinhança com intuitos eleitoralistas.

Tal recurso experimental de cunho ‘Big Brother’ confirmam igualmente dois pressupostos do padrão de americanização das campanhas eleitorais. Por um lado, que a orientação de voto é privada mas a participação nos actos eleitorais é publica. E, por outro lado, valida o primado do info-entretenimento ao subsumir que privilegia aquilo que os eleitores possam saber acerca uns dos outros em detrimento dos assuntos substanciais da campanha.

Rui Alexandre Novais,
leciona e investiga na área dos media e comunicação (CECS/UM, UP e University of Liverpool)
 

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