É, sem qualquer tipo de preocupação quanto ao nível de adjectivação utilizado, de resto não há como fugir às palavras quando elas também dançam em redor do que se pretende exprimir, um espectáculo muito bonito. A consciência da memória do que se foi e do que se fez activa-se e serve como uma espécie de bálsamo para a existência, um lenitivo para imensa vida que sobra para além de uma carreira de bailarina que findou, mesmo que isso constitua algo de inexorável em todas as profissões e ofícios, mas com particular acuidade nos bailarinos e futebolistas, como se sabe.

Barbora Hruskova despediu-se dos palcos a 27 de Junho de 2014, tentou adiar ao máximo o final do respectivo percurso artístico, mas acabou por ceder a essa mágoa após viver apoquentada com uma dor que lhe mitigava as prestações desde 2010. Encarnou, no dia referido, a personagem de “Giselle” num suposto adeus definitivo ao palco. A verdade é que com este “A Perna Esquerda de Tchaikovski” volta a pisá-lo, quanto mais não seja para exorcizar positivamente as memórias extensas de 30 anos de carreira. Um exercício celebrativo que funciona como uma positiva catarse das lembranças.

Imagem de cena do espectáculo A Perna Esquerda de Tchaikovski. créditos: Bruno Simão

Depois desse espectáculo no Teatro Camões, em Lisboa, onde foi tributada com flores e todas as atenções, a primeira bailarina da Companhia Nacional de Bailado (CNB) acabou, na verdade, por não deixar o palco: em 2015, a instituição que ela representou numa dimensão de operacionalidade artística durante largos anos, decidiu através do repto lançado por Luísa Taveira (directora artística da CNB) ao encenador Tiago Rodrigues (director do Teatro Nacional D. Maria II) levar por diante a ‘empreitada’ respeitante à peça “A Perna Esquerda de Tchaikovski”.

A peça foi apresentada no Festival DDD – Dias da Dança há escassos dias, o TNSJ presenteou as récitas com casa cheia (com uma terceira a decorrer no Teatro Constantino Nery, em Matosinhos). “O aquecimento ainda não é dança, é a promessa de dança!”, começou por dizer aos circunstantes, em jeito divertido, num prelúdio para o diálogo com o seu próprio corpo. “Eu e o meu corpo somos duas…” e tece algumas odes às diferentes partes do corpo, as suas ferramentas anatómicas: pés, dedos, braços… num momento que nos remete para a poesia de Pablo Neruda.

Imagem de cena do espectáculo A Perna Esquerda de Tchaikovski. créditos: Bruno Simão

Para além do piano e da presença de Mário Laginha, músico e compositor da partitura melódica que acompanha a peça, que executa em palco de forma brilhante, diga-se de passagem, há uma barra, uma pintura enorme que funciona como ciclorama e um muro/barreira em lousa onde estão inscritas inúmeras palavras-chave e expressões da vida da intérprete: “Romeu e Julieta, Cisne Negro, Prokofiev, cirurgia, entorse, Siegfried, quadril, pirueta…”, num infindável cardápio de palavras expostas.

No diálogo com ela mesma (do qual o público é intencionalmente receptor), ou seja, no monólogo com o corpo, assume-se como bailarina e bacante em simultâneo. Entre os gestos e movimentos suaves com que a vemos dançar, vai intervalando, e fala de forma descontraída dos episódios marcantes da biografia artística e pessoal. Das ‘maleitas’ e de que forma é que as mesmas interferiram no percurso: fractura da coxa, dedo do pé partido, entorse fatal, cirurgia ao joelho, espasmo muscular nas costas, costela partida e por aí fora, numa colecção numerosa de interjeições anatómicas que lhe surgiram no caminho.

A espaços, o matraquear contínuo das teclas, desencadeado por Mário Laginha, põe-lhe o corpo em combustão. E solta-se com maior dose de frenesim pelo palco. E nesse bailado insinuante e estético não descortinamos as limitações corpóreas que o tempo se lembra de sublinhar, Barbora teima antes em sublimar. Tal como ela própria diz no início da peça: “Eu sou uma bailarina que não cai, sou uma bailarina que interpreta!”, talvez por isso é que apesar da despedida oficial, o corpo subsista numa relutância face ao abandono definitivo. Barbora Laginha Rodrigues é um nome somado (e somático) que não se despede da nossa memória tão cedo.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments